—Por um triz, abbade, que me estendia! Tal é a certeza de que está el-rei n'esta casa!—E com transporte olhando para as janellas:—Onde está pernoitando o snr. D. Miguel l.°! o rei amado dos portuguezes, na pobre residencia de S. Gens de Calvos! Isto parece um sonho!
A segunda-feira de entrudo foi um chover desabalado. Não houve entremez nem se via viva alma no cruzeiro. O abbade não consentiu que o hospede se retirasse; e, aconselhado por Nunes, mandou á Povoa buscar a bagagem. Era um bahú de lata amolgado na tampa com um cadeado roído de ferrugem. O legitimista ainda não tinha dado nome algum, nem os outros ousavam abrir ensejo a que elle tivesse de o inventar. Seria indelicadeza obrigal-o a mentir. Além de que, o padre Marcos, tratando-o sempre por senhor,—o senhor isto, o senhor aquillo—entendia que se aproximava do tratamento que se deve aos reis, e ao mesmo tempo ia insinuando ao real hospede que já o conhecia.—Bom é que elle se vá persuadindo que não somos patêgos—dizia o abbade ao Nunes.—Sim, bom é que se persuada ... você percebe... E piscava com esperteza.
—Ora, se percebo! O abbade tem andado com uma cabula muito fina. Eu é que me custa a ter mão em mim. A minha vontade era deitar-me de joelhos aos pés d'elle, e dizer-lhe: «Real senhor, nada de disfarces! Aqui estão dois vassallos de vossa magestade que lhe offerecem o seu sangue!»
—Deixe estar, acommodava o padre, deixe estar, Nunes... As coisas não vão assim... Quando fôr tempo, eu lh'o direi... Nada de espantar a caça.
O Verissimo pediu ao abbade algum livro para se entreter, e não o obrigar a atural-o. O padre levou-o ao seu quarto onde havia uma estante de pinho com tres lotes de livros. Mostrou-lhe o Punhal dos Corcundas, a Defesa de Portugal do padre Alvito Buela, a Besta esfolada, os Burros, e o Novo Principe. O Verissimo levou-os para o seu quarto, excepto os Burros; disse que não gostava de poesia. Fallou com louvor do padre José Agostinho e de Fr. Fortunato de S. Boaventura—columnas do altar e do throno, que tinham deixado dois vacuos impreenchiveis na phalange realista. Perguntou-lhe o abbade se os tinha conhecido pessoalmente.—Que sim, como as suas mãos... E sorria, como o principe proscripto, se lhe fizessem semelhante pergunta.
—Que prazer teria o padre José Agostinho, se hoje vivesse e pudesse vêr el-rei!...—meditou o abbade com a sua grande perspicacia observadora.
—Decerto...—concordava o Verissimo indolentemente.—Mas quem tem agora esperanças de vêr D. Miguel em Portugal?
—Eu, senhor, eu!—respondeu o padre batendo na arca do peito com as mãos ambas—Eu!
O Verissimo folheava o Punhal dos Corcundas, e parecia não perceber a vehemencia do padre.
—Bons desejos, bons desejos do caro abbade...