E, dilatando-se philosophicamente e chistoso, o juiz relator, addicionava, aconselhando, que seria bom e proveitoso que nas terras selvaticas do Minho se espalhassem muitos Migueis d'aquella casta e feitio até que os novos Sebastianistas se convencessem de que somente assim poderiam arranjar um Miguel que lhes désse commendas, titulos, postos militares e prelazias.
Os desembargadores, com o seu rapé engatilhado aos narizes, riram muito do final do accordão, e, sorvidas as pitadas sibillantes, assignaram por unanimidade.
Reformada a sentença e pagas as custas pelo juiz da primeira instancia, Verissimo foi posto em liberdade; e, quando chegou ao escriptorio do carcereiro Mello para se despedir, encontrou a Libania de Covas desmaiada de jubilo, nos braços da mulher do chaveiro. Como era feliz, deixou-se ser mulher—chorou; e quando lhe cumpria dar animo ao preso, no pateo do governo civil, riu-se com a valentia dos homens extraordinarios.
O conselheiro Leite recommendou ao Nunes procurador que lhe mandasse a casa o Verissimo. O filho de Norberto apresentou-se timorato, receoso, com maneiras submissas, mas dignas d'um Borges Camêlo infeliz.
O desembargador explicou-lhe que o chamára para lhe fazer conhecer a divida que lhe pagou, posto que as situações fossem muito diversas. Improperou-lhe serenamente o seu delicto; estygmatisou a acção de permittir que o julgassem D. Miguel; fallou acerbamente contra este tyranno parricida, incestuoso, canalha, e terminou por lhe aconselhar o trilho da honra, o trabalho, e a expiação das suas irregularidades, mostrando-se digno da compaixão que lhe inspirára, despronunciando-o. O Verissimo beijou-lhe a mão, e recusou dez pintos que o conselheiro lhe dava—que, se um dia necessitasse, lh'os pediria. E o Fortunato Leite, a rir:
—Então as bêstas dos abbades sempre cahiram? Fez você muito bem. Devia esfolar essas cavalgaduras!
O Verissimo recuava muito agradecido.
O conselheiro Fortunato exerceu uma energica influencia vitalisadora na nova encerebração de Verissimo Borges e bastante na do Torquato Nunes Elias.
Por medeação do bondoso desembargador, obteve o Nunes alvará de solicitador de causas nos auditorios do Porto. Ganhou boas relações. Era esperto, zeloso e pagava-se regularmente. Chamou para a cidade a mulher e os dois filhos. Alugaram casa na rua de Traz as duas familias. Davam-se muito bem, e gastavam economicamente os 750$000 réis das Botelhas, de meias com os salarios de procurador. O Verissimo frequentava á noite o café das Hortas, jogava o quino e, de vez em quando, ia ao café da rua de Santo Antonio ouvir os demagogos dos manos Passos, que o festejava e catequisavam. Dava-se com os Navarros, com o Almeida Penha, com os Peixotos vidraceiros. Elle, sobpondo ao reconhecimento os escrupulos de espião, contava ao conselheiro Leite, cabralista intransigente, os planos dos setembristas, os clubs, as lojas de carbonarios, as tramoias arranjadas em Braga pelo barão do Casal, muito setembrista, padre Alves Vicente, de combinação com o Passos José, com o Faria Guimarães, com o medico Resende, com o Damasio, com o Alves Martins. O governador civil, visconde de Beire, estava em dia com as conspirações da viella da Neta—aquelle baluarte da Liberdade que demorava paredes-meias com os escombros do Deboche, não griphado, muito á franceza;—tudo acabado hoje em dia, e soterrado debaixo d'uma loja de modas, d'um café e d'uma taberna,—o vitalismo soez e chato da decadencia.
Verissimo arrecadava uma gratificação, umas seis libras mensaes, mesquinha paga dos serviços que fazia á ordem, á tranquillidade civica da rua das Flores e das Congostas.