Em Prazins ouvia-se dobrar a defunto em Villalva. Martha perguntou ao pai quem tinha morrido.

Elle respondeu serenamente:—Dizem que foi o Dias que está com Deus. Reza-lhe por alma que é o que elle precisa agora.—Martha deu um grande grito, e com as mãos na cabeça, a correr, deitou a fugir pelos campos. Ella sabia onde era o remanso fundo do rio Ave em que a mãe se suicidára. O pai correu atraz d'ella, a gritar, que lhe acudissem. Fóra d'aldeia, andava uma roça de matto, com muitos jornaleiros que correram todos atraz de Martha, e a levavam quasi apanhada quando ella cahiu, a estrebuchar, em convulsões. Conduziram-na para casa com os sentidos perdidos, e puzeram mulheres a vigial-a na cama. Esta nova chegou a Caldellas. D. Thereza, a irmã do padre Osorio, foi com o irmão a Prazins, e convenceram o Simeão a deixar ir a filha para a companhia d'elles algum tempo.

Martha chorava muito, abraçando-se no amigo de José Dias; e elle, quando o lavrador com impertinencia dizia á filha «está bom, está bom», observava-lhe com azedumes:—Deixe-a chorar, deixe-a chorar!—E voltando-se para a irmã:—A estupidez é cruel!

[8]Carta dirigida ao cavalheiro José Hume. Versão de Antonio Pereira dos Reis, 1847, pag. 99.

[XV]

O Simeão de Prazins tinha sido antigamente regedor um anno; depois, cahido o ministerio e o governador civil que o nomeara, voltou ao poder o Joaquim de Villalva, cartista puritano, com a restauração da Carta. Duas restaurações boas. O Simeão lembrava-se com saudades da sua importancia no anno em que governára a freguezia—o respeito dos rapazes recrutados, as considerações dos taverneiros, que davam jôgo em casa, das raparigas solteiras que andavam gravidas, a auctoridade do seu funccionalismo na junta de parochia, etc. Ora, como o Joaquim de Villalva, desgostoso e doente com a morte do filho, pedira a demissão, o administrador nomeou a regedoria no de Prazins. O brasileiro achou que era bom ter de casa a auctoridade para maior segurança dos seus cabedaes e pessoa. Foi uma desgraça.

Depois do convenio de Gramido, Zeferino recolhêra ás Lamellas com alguns dos seus primitivos legionarios. Elle tinha passado trances amargos. Ajuntára-se ao aventureiro Reinaldo Mac-Donell, em Guimarães, quando o escossez descia do Marco de Canavezes para Braga; esteve nas barricadas da Cruz da Pedra quando o barão do Casal espatifou a resistencia d'aquelles desgraçados illudidos pelo caudilho estrangeiro; foi dos primeiros a fugir por Carvalho d'Este, a comprehender a inutilidade da defeza, e por montes e valles deu comsigo em Porto d'Ave, e d'aqui foi para Guimarães onde se aquartellaram o Mac-Donell com o seu estado-maior. Logo que chegou foi procurar o tenente-coronel Cerveira Lobo, que fazia parte do cortejo do general. Mandaram-o ao palacete do visconde da Azenha, onde o escossez se tinha aquartellado com o seu estado-maior. O Cerveira Lobo estava a beberricar cognac velho copiosamente sobre uma ceia farta, comida sem sobresaltos. Á mesa, onde faiscavam os crystaes dos licores, avultavam, scintillando os metaes das suas fardas, o quartel-mestre general Victorino Tavares, de Fagilde, José Maria de Abreu, ajudante de ordens, o morgado de Pé de Moura, o Cerveira Lobo e o Sebastião de Castro, do Covo, commandante do batalhão de voluntarios realistas de Oliveira de Azemeis, que arredondava 42 praças, e seu irmão Antonio Carlos de Castro, ajudante de ordens do general,—dois homens gentilmente valorosos;—o coronel Abreu Freire, morgado d'Avança, e o Bandeira de Estarreja que é hoje padre.

A noite era de 27 de dezembro de 1846, muito fria. Bebia-se forte. A garrafeira da casa do Arco era um calorifico. O Mac-Donell, muito rubro, n'aquella bebedeira chronica que lhe assistiu na vida e na morte, esmoía a ceia passeando n'um vasto salão, de braço dado com uma formosa senhora da casa, D. Emilia Correia Leite d'Almada. Dir-se-ia que o bravo septuagenario tinha vencido uma batalha decisiva, e procurava matizar com flores de Cupido os seus louros de Mavorte. E o Cerveira Lobo bebia e relatava proezas dos seus saudosos dragões de Chaves com gestos bellicos e as pernas desviadas como se apertasse nas côxas a sella de um cavallo empinado no fragor da peleja. N'isto entrou um camarada, ás 11 da noite, a chamar apressadamente o quartel-mestre general, que o procurava com muita urgencia um capitão de atiradores do batalhão do Populo.

O Victorino de Fagilde encontrou na sala de espera o capitão Pinho Leal,[9] um robusto e jovialissimo rapaz, de trinta annos, com uma fé politica, antipoda da sua forte intelligencia—uma especie de poeta medieval, com um grande amor romantico ás cathedraes e ás instituições obsoletas e extinctas. Elle tinha muitos d'estes camaradas visionarios e respeitaveis na sua phalange da Madre-Silva...