—Você falla serio, ó sôr Zeferino?
—Se fallo serio?! Então você não sabe com quem é trata.
—Ora bem—entendamo'-nos—é a rapariga que você quer, a rapariga estreme, sem dote nem escriptura?
—Eu não tenho senão uma palavra. Já lhe disse que sim.
—A rapariga é sua.
Negociára a filha com o Zeferino como tinha negociado com o Tarracha a vacca amarella na feira dos 13. Eis um caso exquisito de aldeia que pela torpeza parece acontecido n'uma cidade culta. Conversou-se este dialogo debaixo de um castanheiro frondoso, com um pavilhão de folhagem gorgeado de passaros, com uns tons de luz esverdeada, na dôce placidez crepuscular de uma tarde de agosto, entre dous homens de tamancos, arremangados, com os peitos cabelludos a negrejar d'entre os peitilhos da camisa surrada de suor e poeira, brutos no gesto e na phrase. Analogas passagens, com estylo pouco melhor, tem sido dramatisadas nas salas, entre homens da melhor polpa e casca social—uns que mandaram ensinar ás filhas os verbos francezes e são assignantes do Journal des Dames que marca ás meninas a balisa até onde póde chegar o arrojo da lingua franceza e os seus mais avançados destinos. Da outra parte, homens ricos, de figado engorgitado, fatigados, sedentos de senhoras finas que ponham no luxo das suas salas os tons vivos da carne constellada de diamantes. É o epilogo de vinte annos de lavra dura, o substratum da compra de negras a milhares:—comprar uma branca, das que o amor pobre e o talento esteril não podem negociar. O contracto feito em Prazins—eis a differença—por parte do pedreiro era um heroismo: dava o seu dinheiro por aquella mulher; daria mais depressa o seu sangue. Era uma paixão das que não pegam com os dentes anavalhados em corações civilisados, quasi desfeitos. Ora, os pedreiros que vem d'além-mar, e se vestiram no Pool ou no Keil, não amam nem compram assim. Fazem o dote economico, comezinho á esposa. Compram uma machina de propagação, condicionalmente. Se, extincto o comprador, a machina, não deteriorada, tiver pretendente, o substituto que a compre. O defunto prefere que a sua viuva, adelgaçada e espiritualisada por jejuns, lhe converse com a alma.
[II]
Por esses dias chegou carta de Pernambuco, incluindo ordem, primeira via, 48$000 réis, dez moedas de ouro. Feliciano mandava 12$000 réis para as arrecadas da sobrinha, e o resto ao irmão. Dizia-lhe que estava a liquidar para vir, emfim, descançar de vez,—que já tinha para os feijões. Recommendava-lhe que fosse deitando o olho a uma ou duas quintas que se vendessem até trinta ou quarenta mil cruzados; que se ainda houvesse conventos á venda, os fosse apalavrando até elle chegar.
—Quarenta mil cruzados, com um raio de diabos!—exclamou o Simeão, e foi mostrar a carta ao padre-mestre Roque, ao Trêpa de Santo Thyrso e ao ex-capitão mór de Landim; e, como encontrasse na feira o dono do mosteiro dos benedictinos, o Pinto Soares, um deputado gordo—a rhetorica viva do silencio mais facundo que a lingua, d'uma grande pacificação somnolenta—perguntou-lhe se queria vender as quintas dos frades, que tinha comprador. O Pinto Soares, como um homem que acorda com espirito e um pouco de atheismo, respondeu-lhe que não vendia para não transmittir ao comprador a excommunhão que arranjára comprando bens das ordens religiosas. Mas o Simeão, em materia e raios do Vaticano, tinha na sua estupidez a invenção de Franklin. Continuava a perguntar a toda a gente se sabiam de conventos á venda, ou quintas ahi para quarenta mil cruzados.