Este exemplo indelicado seduziu a esposa a considerar o marido uma substancia comestivel entre o prezunto de javali e o fiambre de viado. D'ahi, o desacato, o deslize d'aquella patriarchal idolatria com que dez centos de mulheres genuflectiam ao sancto rei Salomão.

Abastardado o antigo preito da costella ao costado, da parte ao todo, os philosophos inventaram a alma para d'alguma fórma afidalgarem a juncção da carne á carne, do osso ao osso--phraze biblica sobremaneira bonita e aziatica. Ideada a alma, cumpria ungir com os oleos mysticos o pacto da alliança entre alma e alma. Accudiram os canonicos com a invenção do sacramento.

Espero que o meu visinho não ignore inteiramente que os Sacramentos são sete. E, se esta sombra de duvida offende a sua orthodoxia, sirva-me de desculpa aquillo de Plutarcho no seu tractado «Da maneira de lêr poetas.» Diz elle: «A religião, coisa difficil de perceber, está acima da intelligencia dos poetas». Mas do sacramento do matrimonio sei eu que o snr. Raimundo, sem embargo do seu alto lyrismo, percebe o essencial, porque eu mesmo o ouvi dizer a sua esposa:

«O matrimonio foi divinamente instituido». Por signal{9} que ella, áttica e sceptica, lhe respondeu:--Bem me fio eu n'isso!

E a razão de sua esposa duvidar da procedencia divina da instituição, meu caro visinho, eu lhe digo em que bases se funda.

Instituição divina ha só uma: é o mundo. Esta crença hade prevalecer emquanto meu mestre Theophilo não quizer provar que o mundo é obra dos mosarabes. Divino é tão sómente aquillo que humanamente se não faz. Os sonetos de v. s.ª, por exemplo, não me parecem absolutamente de instituição divina. O cazamento tambem não, por que em tal acto influem o amor, o interesse, o medo, a vergonha, o reumatismo, a papa de linhaça posta por mão de esposa carinhosa nas irritações do apparelho digestivo, etc. Estas coisas são tão divinas como eu; e, senão ouso dizer como o visinho, é por que v. s.ª, na sua qualidade de bardo, tem lumes divinos, mens divina; arde, fumega, evola-se como Elias--volatisação de que se não gabam aqui os nossos visinhos pecuniosos por que o dinheiro pucha por elles para baixo como os elythros pela tartaruga.

V. s.ª sabe que, na antiga Germania, consoante Cornelio Tacito descreve, aquelles barbaros ditosos cazavam-se sem sacramento, sem sacerdote e sem templo. O noivo, em presença de parentes seus e da noiva, dizia-lhe:{10} «Recebo-te como minha legitima mulher, para te haver e possuir, de hoje ávante, boa ou má, rica ou pobre, para te amar e assistir em tempo de saude e doença, até que a morte nos separe».

Alli, divindade e padre, n'aquella augusta ceremonia, eram os arcanos sagrados, arcana sacra, o mysterioso respeito ao Deus invisivel, consagrado nos solitarios murmurejos da selva, lucos ac nemora consecrant.

Ora, medite, snr., n'estes selvagens, onde as mulheres rapadas, as adulteras, eram por tanta maneira raras, que apenas apparecia uma para cevar a execração das turbas! Pois olhe que não havia lá n'aquellas florestas dodonicas idea de femea fabricada da costella do homem. Lá dizia-se que a creadora do mundo havia sido uma enorme e desmedida vaca, e vivia-se honradamente apesar de tão estupida cosmogonia de uma vaca bruta; e, por aqui, no pino da civilisação, com tantas vacas sabias, vamos a pique! As nossas femeas restituem-nos a costella, pondo-no'l-a como apendice ao craneo; e, em vez de se tosquiarem á guiza das germanicas, alcantilam as cabeças com uns riçados delirantes. Atroz!

Diga-me, poeta laureado: não será injuriar Deus attribuir-lhe o vinculo sacramental do matrimonio, d'onde derivam tantos infernos sabidos, tantos infernos ignorados,{11} tantos coraçoens nobilissimos pervertidos, tanta deshonra escarnecida pelos folioens dos palcos, tantas alcovas devassadas, tanta mulher emborcada no gôlphão das lagrimas a que a sociedade chama o lodo da prostituição?