A felicidade da pobre cega, e bem assim o futuro de Rosa poder-se-iam julgar seguros; mas como nada n'este mundo é immutavel, o momento, em que a adversidade ia estender o seu braço de ferro sobre as duas infelizes, não estava longe.

V.

Voltou a primavera e com ella as encantadoras occupações de Rosa. Foi com enthusiasmo, que a candida e poetica criança encontrou as flôres, suas amigas, com que preparou os primeiros ramos, que appareceram no mercado.

Os cestinhos e ramos de Rosa obtiveram uma grande extracção, como no anno anterior. Ia entregal-os pessoalmente nas casas ricas, e muitas vezes as senhoras morgadas, se julgavam felizes por ter em sua companhia esta linda criança por algum tempo.

Rosa, vestida á lavradeira, era muito galante e modesta; o seu metal de voz era agradavel, e as maneiras tão delicadas, que quasi sempre as freguezas, ao preço do ramo, juntavam um presentinho para a vendedeira; mas quando perguntavam a Rosa o que era que mais estimava, respondia sempre, que o seu maior desejo era possuir um livro para se instruir.

Rosinha tinha uma paixão ardente pelo estudo; quasi sem mestre tinha aprendido a lêr correntemente, e a sua maior alegria consistia em obter um livro para se entregar á leitura.

D. Thereza pela sua parte tambem não obstava aos desejos de Rosa, tanto que se lhe não dava que ella faltasse ás suas obrigações; mas devemos fazer-lhe justiça dizendo que sabia alliar a satisfação dos seus desejos, com o cumprimento dos seus deveres, por isso só depois de ter terminado os seus affazeres é que se dava ao estudo.

Estava Rosinha uma occasião sentada á borda d'um ribeiro, entretida a colher juncos para fazer um cesto, quando, sem ella o presentir, se lhe aproximou uma senhora ainda joven.

--Para que estaes escolhendo esses juncos, minha menina?--lhe disse a joven senhora com modo affavel.

Rosa levantou a cabeça, e vendo a desconhecida, saudou-a e respondeu: