Finalmente chegou o terrivel momento da morte. Uma convulsão, alguns murmurios sufocados........ e D. Thereza tinha deixado d'existir entre os vivos, e sua alma, desprendendo-se das ligações terrenas, voára ao céo a receber da mão de Deus o premio das suas virtudes.
Ao principio não se ouviam mais que os chóros de todos os criados da quinta, mas em seguida uma voz forte e imperiosa se fez escutar. Era a de D. Euzebia. Collocou uma pessoa junto do cadaver de sua irmã, deu as ordens para os funeraes, e passou a inspeccionar as caixas e commodas, que fechava com cuidado, guardando as chaves.
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Apenas D. Euzebia fechou as commodas e caixas, compareceu o juiz eleito da freguezia para sellar e tomar conta de tudo o que pertencia a D. Thereza.
--Aqui estão as chaves, senhor juiz eleito--disse D. Euzebia,--mas é inutil esse trabalho, por que eu sou a unica herdeira de minha irmã, e ella não podia desherdar-me.
--É verdade, minha senhora,--respondeu o juiz--mas cumpro o meu dever, por que a lei protege os direitos de todos.
--Só eu é que tenho direito á fortuna de minha irmã, pois ella não tem filhos.
--Sim, minha senhora, mas esta orphãsinha, a quem ella deu asylo?
--Minha irmã--replicou com colera D. Euzebia--seria por ventura capaz de me desherdar, testando os seus bens a favor d'estas duas mendigas, que ella teve a phantasia de recolher em sua casa?
--Não o affirmo, minha senhora--respondeu com brandura o juiz;--mas sua irmã póde ter feito testamento, no qual deixe a Rosa alguma prova da sua estima e amisade.