Ai! quem me dera casar!.. quem me dera casar com Frederico Arthur!.. (Musica de surdina){38} Como eu gosto d'elle! Ha mais de dous annos que este meu coração padece! Não ha noite em que eu não sonhe duas vezes com a sua imagem... Quando acordo, e o não vejo, a minha vontade é chorar, chorar, chorar! Perdi a vontade de comer! Tudo me faz fastio. Os cirurgiões mandam-me tomar aguas ferreas!.. e só eu sei o que tenho! O meu mal é aqui!.. (a mão sobre o coração) Oh céos! quanto eu sou desgraçada sem o meu Frederico! (Ergue-se, e falla com muito sentimento. Musica plangente.) Quando eu o vi, pela primeira vez, foi na hospedaria das Caldas de Vizella, onde meu pai tratava do seu rheumatico. Estávamos a jantar quando elle entrou, e meu pai offereceu-lhe frango com ervilhas. Elle agradeceu, mas não comeu, dizendo que o seu jantar era um ôvo quente. E d'ahi a pouco, trouxeram-lhe um ôvo quente n'uma tigella; e elle comeu o ôvo, bebeu um copo d'água fresca, e disse que tinha jantado! Como eu fiquei triste e pensativa a olhar para elle, e elle para mim! Perguntei-lhe, sem o pai ouvir, se podia viver só com um ôvo, e elle respondeu que a sua alma se sustentava com a esperança de ser amado por mim... e{39} com tres óvos por dia. Oh! que lembranças estas, que lembranças estas! (chora) E vai depois, disse-lhe eu: «O snr. está assim magro porque come muito pouquinho; se gosta d'óvos coma uma duzia d'elles de cada vez»; e elle pregou-me os seus lindos olhos, e respondeu a suspirar: «Que me importa o corpo? a mim o que me importa é o coração que é grande; e, se o corpo é magro, mais depressa me reduzirei a cinzas se V. Ex.ª me desprezar.» Isto fez-me no peito mossa! fiquei presa d'este dito; senti por aqui acima uma fogueira que me pôz a cara em brazas vivas, e não lhe disse coisa de geito porque fiquei um pedaço intallada. Depois, ao despedir-mo'nos, com muita vergonha, sempre pude dizer-lhe: «amo-vos, meu bem!» Ora aqui está como começou isto. Desde então para cá apenas lhe tenho fallado umas trez duzias de vezes da janella para o caminho... Sinto-me muito acabada; e, se isto assim dura, não vou longe. Elle tambem está no osso, o meu pobre Frederico!.. Antes de começar estes amores, eu pezava cinco arrobas e seis arrateis pela medida antiga; pois aqui ha oito dias pezei-me de novo, e tinha mingado duas arrobas. Assim não podemos{40} viver, nem eu nem elle. (Com força, que a musica imita.) É preciso acabar com isto d'uma maneira ou d'outra. Se meu pai quer, quer; senão quer, quero eu. Uma mulher não póde ser escrava da sua fidalguia. Antes quero ser esposa d'um escrivão, e viver contente, que ser a morgadinha de Val-d'Amores, e estar-me aqui a pôr na espinha... (Ouve-se rumor de vozes fóra.) É o meu papá!.. (Senta-se.) Vem-me empatar as vazas...
SCENA VIII
PANTALEÃO, MACARIO, E A MORGADINHA
(Macario é um sujeito de oculos e casaca de briche, já de annos, e ar circumspecto)
Pantaleão (áparte ao boticario)
Veja lá como lhe falla... Olhe que ella é finoria... (á filha) Cá me vou preparar, Joaninha. Aqui te deixo o snr. Macario para não ficares sósinha. (Sáe.){41}
SCENA IX
MACARIO E A MORGADINHA
Macario
Tenha V. Ex.ª muito boas tardes.