Morgadinha
Que te acautelasses dos meus creados quando vens de noute. Deves vir bem armado.
Frederico
Armado! para quê? Tu não sabes que o teu amor é talisman que prostra gigantes! As minhas armas são os raios de fogo que bebo de teus olhos; tenho vesuvios na alma capazes de abrazar cidades!{50}
Morgadinha
Isto não é chalaça, meu amado Frederico! Peço-te que tenhas cuidado, muito cuidado. Se eu podesse estar sempre ao teu lado, não temeria ninguem... Tu verias o que é a morgada de Val-d'Amores... Mas eu não sei como isto hade ser... Bem sabes que meu pae tem a mania de fidalgo...
Frederico (interrompendo-a com exaltação)
Fidalgo! que é fidalgo?! palavra obsoleta em 1871! Que é fidalgo? a sola velha e inutil d'um borzeguim do seculo XV! Oh! então é certo que teu pae ignora, que o baptismo de sangue da revolução franceza lavou todas as manchas da desigualdade entre homem e homem! Oh! a revolução! o segundo christianismo! Que é fidalgo? teu pae não sabe que aquelle brasão d'armas (apontando) está alli como a pedra sepulcral das cinzas feudaes! Teu pae está debaixo do sol e não sente o calor da fermentação social! Ouve o estrondear da democracia reinante, e volta a face para os phantasmas{51} dos avoengos que se somem lá em baixo no abysmo da historia!
Morgadinha
Não sei lá d'essas historias; o que te peço é que não te exponhas a levar alguma paulada á falsa fé. Olha que os meus creados são uns patifes, e meu pae não é boa rez, quando se arrenega. Pensa no que se hade fazer, porque elle não nos dá consentimento para nos casarmos.