Preparava Calisto um projecto de lei para a abolição dos vinculos, quando recebeu a seguinte carta de Lopo de Gamboa:
«Primo e amigo.
Recommendaste-me que désse juizo a tua senhora e minha prima. Contra paixões não ha conselhos. Tu lá o sabes por theoria e experiencia, como eu que não tenho dado máo burro ao dizimo, um coisas de coração.
Préguei-lhe prudencia, conformidade e paciencia. O abbade tambem lhe citou exemplos admiraveis de esposas sanctificadas pela ingratidão dos maridos. Não conseguimos nada. Cada vez te ama com mais furor. Diz que te ha de ir buscar ás entranhas da terra e aos abysmos do bárathro. Isto vae de galhofa; mas eu tenho sincera pena da nossa pobre prima. Desculpo-te, porque és homem, porque amas outra mulher, e porque esta realmente, deve pouco á formosura e graças. Não sou de ambages: digo o que sinto.
Contou-me o primo Gastão de Villarandêlho que te vira em S. Carlos, e comtigo no camarote uma deidade arrebatadora. Se é essa a rival da Theodora, quem ousará chamar-te ao caminho da probidade conjugal?! Já agora, só milagre. Nas nossas edades, meu amigo e primo, amores que entram, não ha juizo purgativo que os ponha fóra do corpo.
Vamos agora ao que importa.
Está tua senhora resolvida a ir procurar-te a Lisboa. Tenho tido mão d'ella; mas já não posso. Como lhe não respondeste á carta, desesperou-se, declarou-te guerra de morte, e tens que vêr com uma mulher furiosa. Fiz-lhe vêr que póde ser mal recebida e desprezada. Responde que quer esganar quem lhe roubou seu marido. Está doida; mas quem ha de contel-a?! Alguns parentes nossos dão-lhe razão: é o diabo isto; espicassam-n'a, e ella volta-se contra mim, dizendo que sou um patife como tu. Isto é bonito!
Em divorcio não quer que lhe fallem. Diz que quer o seu homem e não ha tiral-a d'aqui.
Prevejo os crueis desgostos que te vae ahi dar, além das vergonhas. Disse-lhe que não fosse, sem se vestir ao estylo das senhoras de Lisboa. Não quer. Apparece-te ahi gothicamente vestida, com o fatal vestido do casamento, e o fatal chapéo, que é um monstro de palha. Ha dois annos te dizia eu que vestisses tua mulher senhorilmente. Respondias-me que os melhores enfeites de uma virtuosa são as virtudes. Agora, atura-a. Se ella ahi fôr vestida de virtudes, diz lá a essa gente que se não ria d'ella.
E se tu tens de a vêr a testilhas com essa diva, que em quanto a mim não é casta? Então é que ellas são, primo Barbuda! Sobre arranhaduras, escandalo! A tua posição seria feita ludibrio da canalha. Os jornaes a fustigarem-te, e tu com a cabeça perdida! Eu imagino-me na tua situação, e tenho horror.