—Certamente: pois de quem hade ser o dinheiro, senão da nação?

—Pois eu e os meus constituintes estamos pagando para estas cantilenas do theatro de Lisboa!

—Vinte contos de réis.

Calisto Eloy correu a mão pela fronte humedecida de suor civico, e sentou-se nas escadas da egreja de S. Roque, por que ao espanto, colera e dôr d'alma seguiram-se-lhes caimbras nas pernas. Minutos depois, ergueu-se taciturno, despediu-se do abbade, e foi para casa.

Os alvores da primeira manhã acharam-no passeando e declamando na estreita saleta do seu aposento. Via-se-lhe no rosto a pallidez dos Fabricios.

Ás onze horas entrou na camara. Dir-se-hia que entrava Cicero a delatar a conjuração de Catilina. Deu nos olhos dos seus tres correligionarios que entre si disseram:

—Calisto vae fazer alguma interpellação de grande alcance!

Acabava de sentar-se quando um deputado do Porto se ergueu, e disse:

—Sr. presidente. Muito a meu pezar, e talvez da camara, volto de novo a expender as razões já tres vezes inutilmente expendidas sobre o dever, e justiça com que o Porto reclama um subsidio para o seu theatro lyrico. Sr. presidente…

—Peço a palavra! bradou Calisto Eloy, erguendo-se inteiriço e fulminante—Peço a palavra!