O olhar em si, e ver-se maneatado pelos vinculos sacramentaes, não o reduzia á compostura e honestidade de seu estado e annos. Ainda assim, sejamos justiceiros e ao mesmo tempo misericordiosos com esta alma enferma: na cabeça allucinada de Calisto de Barbuda não havia idéa ignobil e impudica.
O amor, resaltando da cratera abafada quarenta e quatro annos, dizia-lhe que era fidalguia de alma não transigir, por conveniencias e respeitos sociaes, com a oppressão, e alvedrio paterno. Se Adelaide o amava como e quanto Calisto já não podia duvidar, sua honra d'elle era pôr peito á defesa da oppressa, beber metade do absyntho do seu calix, luctar, sem desdouro da probidade de um Barbuda, até perecer, exemplo de amadores de antiga tempera.
Amou quem isto lê, e tresvariou aos vinte annos? Passou por uns hórridos eclipses de entendimento, que apoz si deixam lagrimas tardias e vergonhas insanaveis?
Amisere-se, pois, d'aquelles lucidissimos espiritos de Calisto, que por um se vão apagando ao ventar rijo da paixão, quaes se apagam em céo de bronze as estrellas do mar alto, já quando o naufrago desesperançado finca os dedos recurvos na espuma das vagas.
Ó mal-sorteado Calisto! que aureola de patriarcha te resplendia em volta do teu chapéo de merino e aço, quando entraste em Lisboa! Que anjo eras, entrajado na tua casaca de saragoça sem nodoas! Aquella scientifica boa fé com que procuravas monumentos em Alfama, e agua depurante do muco catharroso no chafariz d'El-Rei, e querias que os aljubêtas da rua de S. Julião te dessem conta do chafariz dos cavallos!…
Que te valeram as maximas de boa vida colhidas a centenares nos teus classicos, e enceleiradas n'essa alma, refractaria á ternura de tanta moça escarlate e succada, que, lá em Caçarelhos, se enfeitava para achar graça em teus olhos?
Cairias tu nas piozes d'esta princeza dos mares, d'esta Lisboa que filtra aos nervos dos seus habitantes o fogo que lhe estua nas entranhas?
Cairias tu, anjo?
XXI
*O mordomo das tres virtudes cardeaes*