Bem que tal acto não implicasse delicto, nem affrontasse os bons costumes, Calisto, apertado no transito difficil das indoles que se passam do comportamento austero e captivo ás liberdades e solturas do vicio, olhava com saudade o seu passado, as suas alegrias puras; e, mais que tudo, áquella hora, como o frio cortava as orelhas, lembrou-se da quentura e aconchego do leito nupcial.

E como esta visão honesta, para mais o pungir, havia de ser encarecida com uma imagem de mulher leal e immaculada, Calisto viu D. Theodora de touca, n'aquelle dormir placido de quem adormeceu com a alma quieta e intemerata. Não bastava a touca, tão hygienica quanto pudica, a penitencial-o com remordentes saudades: viu-lhe tambem o lenço de tres pontas de algodão azul com que ella costumava resguardar os hombros, antes de subir as quatro escadinhas que conduziam ao alteroso leito de páo santo.

Se visões analogas, alguma vez, puzeram guerra ao demonio tentador dos maridos infieis e o venceram, d'esta feita não se logra a sã virtude do triumpho.

É que as toucas e lencinhos pudibundos, sobre não serem enfeites mui seductores, algumas vezes tornam a virtude rançosa e tamsómente boa para adubar palestras de avós com as netas casadoiras. Este mal deve-se ás artes da estatuaria, artes em que a imaginativa não põe nada seu, porque tudo é copiado da natureza nua, ou quasi nua. Nem se quer as Niobes, as Lucrecias e Penelopes o buril respeita. Nos casos mais lacrimaveis e tragicos, querem fados máos que os olhos achem sempre pasto á cobiça, quando a impressão devera ser toda para levantamentos de espirito, e «visões altas» como diz o bom Sá de Miranda.

Quando a arte deshonesta não despe as figuras, veste-as de feitio que pelo ondeado das roupas transparentes esteja o peccado a fazer negaças a conjecturas taes que, certo estou, Calisto Eloy, antes de se empestar em Lisboa, se taes impudicias visse, romperia no parlamento os vesuvios da sua eloquente indignação. E a posteridade, ajuizando da moral d'esta nossa edade de limos e alforrecas, viria a este lameiral esgaravatar a perola da edade aurea, caida dos labios do marido de D. Theodora, a qual, segundo fica dito, dormia de touca e lencinho de algodão azul de tres pontas.

Esta peregrina imagem não bastou a desandar Calisto pelo caminho de Lisboa, e do seu gabinete, onde os pergaminhos dos seus livros pareciam rever lagrimas de amigos descaroavelmente desprezados. O infeliz não desfitava olhos de certa janella, desde que vira perpassar uma luz pelos resquicios das portadas. Podia a trahida Theodora antepôr-se aos olhos extasiados do esposo, com a pudenda touca, ou com as madeixas estrelladas de brilhantes, que elle não a via nem queria ver.

Ahi por volta de meia noite estava Calisto recordando o que dissera, em circumstancias analogas, Palmeirim aquelle grão cavalleiro de Francisco de Moraes, diante do castello de Almourol que fechava em seus arcanos a formosa Miraguarda. N'isto scismava, comprehendendo então as phrases mélicas dos famosos amadores, quando as portadas da janella se abriram subtilmente, e logo a vidraça foi subindo mui de leve.

O recanto, em que o morgado da Agra se abrigára do vento, estava fóra do caminho, e sumido aos olhos da pessoa que abrira a janella. Ao mesmo tempo, ouvia elle passos na estrada, e logo viu acercar-se um vulto rebuçado da casa de Adelaide, e parar debaixo da janella que se abrira.

Conjecturou Calisto de Barbuda, que D. Catharina Sarmento, a esposa infida, reincidira nas presas do velho peccado, e sentiu algum tanto molestada sua vaidade de regenerador de corações estragados. Tambem suspeitou que Bruno de Vasconcellos, quebrando a palavra jurada, voltára do estrangeiro a reatar a criminosa alliança. Não lhe deram tempo a mais conjecturas. O encapotado espectorou um cacarejo de tosse secca; da janella, como contra-senha, respondeu outro cacarejo de mais sympathico som, e logo as duas almas se abriram n'este dialogo:

—Ainda bem que recebeste a minha carta, Vasco!…—disse Adelaide—Estavas em casa da tia condessa? Eu mandei lá por me lembrar que se fazia lá hoje a novena das Chagas…