Calisto, digamol-o sem refolhos, caiu. Atascou-se. Foi de cabeça ao fundo do pégo em que deram a ossada o ultimo rei dos godos, e Marco Antonio, e o rei enfeitiçado pela comborça Leonor Telles, e Simplicio da Paixão, e varias pessoas minhas conhecidas, que experimentaram todos os systemas de desfazer a vida, desde o muro de S. Pedro d'Alcantara até ás cabeças dos palitos phosphoricos.

Este enguiçado Barbuda, na volta de Campolide, não teve uma lagrima que chorasse sobre a sua dignidade esfarrapada. Circumvagou a vista pelos seus livros, figurou-se-lhe vêr na lombada de cada in-folio o olho de um demonio zombeteiro, bem que aquelles pergaminhos encadernassem almas, no céo bem-aventuradas, e na terra immorredoiras, almas que n'este mundo se chamaram fr. João de Jesus Christo, fr. Pantaleão d'Aveiro, fr. Antonio das Chagas, e dezenas d'estes talismans, que tem salvado o leitor e a mim de soçobrarmos nos parceis que esbravejam á volta de Calisto.

Eram duas horas da manhã, quando o morgado experimentou uma sensação, que viria a definir-lhe o espirito, se alguem carecesse de vêr este homem a luz extraordinaria.

Nas aguas-furtadas do andar, em que elle morava, residia uma viuva de um tenente, senhora d'annos insuspeitos, de muitas lerias, minguada de recursos, e, por amor d'isso, se offerecêra a cuidar da casa e da cosinha do deputado. Ás duas horas, pois, bateu Calisto á porta da visinha, e, como ella lhe fallasse, exprimiu elle a sensação imperativa, que o levou alli, por estes termos:

—Sr.^a D. Thomazia, ha por ahi alguma coisa que se coma?

—Não ha nada feito; mas eu vou fazer chá, sr. Barbuda, e o que v. ex.^a quizer.

—Olhe se me póde frigir uns ovos com presunto—volveu elle.

—Pois lá vão ter d'aqui a pouco.

—Veja lá que se não constipe, sr.^a D. Thomazia—recommendou elle.

—Não tem duvida. Olhe que eu tenho muito que lhe dizer. Achou um bilhete de visita na escrevaninha? perguntou D. Thomazia pelo buraco da fechadura.