«O conde ignora tudo. Bartholo está com ares de satisfação; nada, porém, diz ao genro nem a Eugenia. Este mysterio mortifica-me. Esclarece-m'o, que o deves ao teu Almeida.

«Falemos agora da tua situação. Compunge-me a sorte de tuas irmãs, e de teus bons paes. Triste espectaculo, na verdade; mas providencial e necessario para a glorificação da tua honra. Precisas de força, e de paciencia para poder emprega-la.

«Queres um cargo publico? Os teus estudos, talento e serviços hão-de obte-lo; mas não cuides que será já, meu amigo. Tu perdeste a occasião de entrar nas secretarias com o arcabuz do cêrco do Porto debaixo do braço. As gravatas dos heroes de gabinete na emigração já se não temem das dragonas. Estamos em tempos pacificos. O que ha seis annos se conseguia e recebia com a mão a cheirar a polvora, é preciso have-lo agora das mãos enluvadas das mulheres, que fazem os despachos nas othomanas, com os ministros reclinados sobre o seio. Advirto-te, para que a decepção te não surprehenda.

«Entretanto, meu caro Fernando, o que tu precisas é de encaminhar desde já a tua pretenção, dando ares de que não pretendes. Resgata os teus bens do Cartaxo, se o comprador t'os ceder: ostenta uma independencia que fira o orgulho villão dos grandes que não supportam animos generosos e isemptos; entra na politica, e escreve, que necessariamente has de escrever coisas excellentes, visto que é esse o ramo de conhecimentos humanos que dá fructo a quem lh'o pede, e para o qual todo o homem está habilitado. A honra ha de ser-te um empeço á boa saída; mas póde ser que a mesma excepção te aproveite. Ora como para estas coisas, e principalmente para a independencia, é necessario o dinheiro, vae ter á rua Augusta, procura meu velho pae, que has de encontrar a bater alguma caldeira, e diz-lhe quem és. Deves saber que eu sou já senhor da legitima materna, e este capital, que excede a vinte contos de réis, lá o tem meu pae á espera que eu lhe dê destino. A tal qual decencia, com que vivo aqui, é meu pae que m'a dá, prohibindo-me que eu gaste da herança de minha mãe. Vê tu que animo este de artista, que ainda não despegou uma semana de trabalhar! Vae lá, meu amigo; elle está prevenido, e sabe que és meu irmão. Pede o que quizeres, para m'o pagares quando puderes.

«Fecho, que está a partir o correio. Escreve muito ao teu

Almeida

DE FERNANDO GOMES A HYPOLITO DE ALMEIDA

Lisboa, 31 de agosto de 1842.

«Meu irmão.

«Guardo em minha alma a tua carta.