—Está bom, disse serenamente o pae. Eu vou pensar e resolverei.

A resolução foi prompta. Francisco Lourenço entrou no quarto onde Fernando estudava, e disse-lhe:

—Arruma esses livros, que já te não servem de nada. És sapateiro como teu pae e teu avô.

Fernando perdeu a côr, e quasi o sentimento. Francisco Lourenço saíu, e foi verter torrentes de lagrimas no seio da mulher, exclamando a intervallos:

—Lá vão todas as minhas esperanças!... Assim havia de ser, porque ouvi a voz da minha vaidade, e nunca me lembrei que um filho podia ter vergonha do officio do pae... Vê tu, mulher, que soberba maldita eu andei gerando e engrossando no animo d'aquelle rapaz! Se eu lhe désse largas, onde iria dar comsigo tamanho orgulho! Ahi tens tu a sciencia a desnaturar-me um filho!... Santo Deus! Bem m'o pregava meu bom pae!... Quantas vezes lhe ouvi dizer que eu, se fosse um sabio, me correria de o vêr a elle na baixa condição de sapateiro!... Não posso nem devo consentir que meu filho se deshonre por amor da sabedoria... Se a sociedade o vexa, paciencia; que fuja da sociedade. Eu antes o quero sapateiro honrado, que filho infamado pela ingratidão. Façamos um homem de bem, e os nobres que façam os sabios ... Mas é dôr, é uma grande afflicção, ter de renunciar ao proposito de tantos annos! É por isso que eu choro ... e bem vejo que é fraqueza chorar! Tenho pena d'elle; tenho-a de véras... mas só assim é que eu posso resgata-lo das mãos do mundo, que m'o ha de perder!

Maria Luciana tentou demover a intenção do marido com razões, e mais que tudo com lagrimas. Lembrou ella que o mandassem logo para Coimbra, onde os condiscipulos o não conheciam. Este remedio azedou mais a ferida do artista.

—Pois eu, exclamou elle, hei de estar evitando que o meu nome seja conhecido?! Hei de esconder-me para que meu filho se não envergonhe? Hei de recommendar a Fernando que não diga em Coimbra quem é seu pae, ou consentir que elle me negue para ser mais bem recebido? Que respondes, Maria? ...

Não respondeu nada a pesarosa mulher. A dizer a verdade, com que argumentos responderia ella, sem molestar-lhe o espirito? O ponto mais sensivel da questão era a dignidade do homem mecanico, trabalhando para engrandecer o filho. Se este desejo e afan lhe era deslustrado por desprezo do seu mister, qual gloria lhe restava? Quem lhe asseverava a elle que o filho, mais tarde, fugiria d'elle como d'um estorvo ao seu maior engrandecimento?

Não obstante, Maria chamou o filho, e mandou-o pedir perdão a seu pae, se não queria ir para a loja trabalhar com os officiaes.

—E porque não hei de eu ir?!—respondeu placidamente Fernando, com grande assombro da mãe.—Eu não tenho vergonha de ser sapateiro. Quero sê-lo quando m'o chamarem.