Não contente ainda, levou Fernando a pedir perdão ao pae de o ter magoado com as suas vaidosas queixas, promettendo honrar-se em confessar por si mesmo, e com orgulho, o officio de seu pae.

Francisco Lourenço resurgiu do seu quebranto, chorou mais doces lagrimas, e perguntou a Fernando se elle queria ir logo para Coimbra, e concluir lá os estudos preparatorios.

Fernando mostrou desejos de ir, e logo os satisfez.

Não comprehendia a mãe como pudesse ir sósinho, por esse mundo além, um menino de dezesete annos! Queria acompanhal-o, estar lá algum mez a ordenar-lhe a casa, ou esquadrinhar familia que lh'o recebesse e tratasse. Fernando, já sciente do que era vida de estudante, dissuadiu a mãe do seu proposito, e prometteu regular-se de modo que nem o desaconchego o molestasse, nem seus paes se arrependessem de o deixarem ir entregue a si mesmo.

Fernando tomou casa em Coimbra, e viveu sósinho, e arredado de todo o concurso de academicos. Esta soledade não era de genio nem gosto. Embora tivesse elle dito que se honraria de confessar cujo filho era, manda a minha fidelidade de historiador asseverar, que o moço se esquivava dos condiscipulos folgasãos para forrar-se á contrafeita honra de se apregoar filho d'um sapateiro.

Poucos dias depois de sua estada em Coimbra, organisou-se o batalhão academico para ter parte na guerra da restauração. Fernando Gomes alistou-se sem licença de seu pae. A bandeira hasteada era a da liberdade. As doutrinas proclamadas eram as da egualdade. O filho do artista sympathisava com a causa ventilada desde 1820. Ouvira desde creança citar os egregios nomes de Ferreira Borges e Fernandes Thomaz, arvores frondosas de civilisação, regadas com o sangue de Gomes Freire, e de outros martyres iniciados da revolução. Execrava as forcas hasteadas no Porto, tres annos antes, e em Lisboa, para o supplicio dos academicos. Além de tudo, acorçoava-se do intimo rancor que votava a fidalgos, por ter sido victima dos escarneos d'elles nas aulas de Lisboa. Sobejava-lhe causa a justificar o enthusiasmo com que pediu uma espingarda, e, primeiro que nenhum, se fardou, e impacientou com a demora da primeira batalha.

Maria Luciana, quando tal soube, quiz ir em cata do filho: o marido antecipou-a no intento, e foi a Coimbra. O batalhão academico ia já marchando caminho do Porto. Francisco Lourenço retrocedeu para Lisboa, cogitando em mandar soccorros a Fernando.

Devemos conjecturar, sem receio de erro, que o desembarque do libertador no Mindello fôra saudado de todo o coração do amigo de Bocage. Francisco Lourenço, com quanto arredado da phalange dos poetas mortos no começo d'este seculo, embriagou-se no ambiente d'elles, e bebeu a sorvos a liberdade nos hymnos propheticos dos timidos evangelisadores, que a não viram, senão ao longe na inundação sanguinea da França, e nas victorias de Bonaparte, que abrazavam allumiando ao mesmo tempo. Bocage devia de muitas vezes romper em apostrophes contra os frades que o viam amansado nos carceres da inquisição, e nos cubiculos conventuaes. Póde ser que o humilde amigo do poeta, em expansivas horas, merecesse a confidencia das amarguras que ennoitaram o melhor da vida do alquebrado espirito de Elmano. Se isto não bastasse a acrisolar o coração do homem do povo, quer-me parecer que o velho odio a José Agostinho de Macedo—energumeno panegyrista das forcas—bastaria a fazer d'elle um acerrimo malhado.

Em quanto a mim, Francisco Lourenço abençoara secretamente a deliberação de Fernando; e, se foi a Coimbra, o intento de tal ida por certo não era estorvar-lhe o ir onde o melhor da mocidade academica levava suas forças de alma, e o prestigio da intelligencia, com que muito se move e reanima a força material das massas. Póde ser que o artista levasse recheadas as algibeiras de peças para fornecer o moço, e preparal-o para as contingencias de emigração. Esta hypothese dá em certeza, quando vemos Francisco Lourenço empenhado com uma casa mercantil ingleza para fazer chegar ás mãos do filho avultada quantia, que o moço recebeu com alegres hymnos á liberdade ... e ao dinheiro tambem.

Fernando Gomes, em todos os recontros com o inimigo, deu provas de grande e imprudente coragem. Foi duas vezes ferido, e muitas vezes obrigado por disciplina a retirar do fogo. N'aquellas vertigens de bravura, que tanto pódem ser desprezo da vida, como culposa ambição de gloria, nenhuma consideração de obediencia o retinha em seu posto. Lá, os camaradas, denominavam-n'o o pequeno diabo, termos que se conformavam com a pequenez e magreza do seu corpo. O imperador já o conhecia de vista e de nome: muito fôra preciso para realçar entre tantos bravos, saídos dos bancos escolares, e quasi todos a competirem em intrepidez com José Estevão de Magalhães, aquella vivida lampada que ainda hontem se apagou no altar da patria, se é que das cinzas d'elle a arvore da liberdade não tem sempre de haurir seiva para reflorescimentos novos.