Fernando olhou com bem fingida surpreza, e retrocedeu a comprimentar o fidalgo.

—Então por aqui!—disse o pae de Paulina.—Acolá estão as meninas, e meu primo o marquez de Tavira, chegado hontem de Roma. Venha cá, se quer conhecer um dos primeiros fidalgos de Portugal.

—Com muito prazer irei comprimentar um primo de vossa excellencia—disse Fernando.

—Aqui está o senhor Gomes—disse Bartholo ao fidalgo—filho de Lisboa, bacharel em direito, e bom rapaz, posto que mordeu muito cartucho nas linhas do Porto, na qualidade de soldado do batalhão academico, e é, aqui onde o vê, cavalleiro da torre e espada, valor, lealdade e merito!...

O sorriso, que envenenava estas palavras, queimou o sangue do filho do artista. Paulina tinha os olhos fitos n'elle, olhos de dôr e compuncção. Se Fernando os visse, daria graças a Deus pela angustia que lhe era premiada com a maviosa paixão d'elles.

O marquez gesticulou ligeiramente um cortejo de cabeça, e disse:

—Consta-me que em Portugal é toda a gente condecorada por façanhas das linhas do Porto!

—Toda a gente, não, senhor marquez—disse Fernando.—Ás linhas do Porto não foi toda a gente, mas todos quantos lá estiveram mereciam bem a condecoração de valor, lealdade e merito.

O legitimista desfranziu um riso de compassivo escarneo, e disse:

—Em quanto a valor, o general Povoas que o diga, se os valorosos o não querem dizer. Em quanto a lealdade, bem se sabe qual foi a lealdade dos bravos que apedrejaram com patacos D. Pedro no theatro, e mataram Agostinho José Freire nas ruas de Lisboa. Em quanto a merito, isso agora é uma questão de barriga: a barriga de cada um é que diz o merito de cada qual...