Foi Simão Botelho cautelosamente hospedado, e o arreeiro abalou no mesmo ponto para Vizeu, com uma carta destinada a uma mendiga, que morava no mais impraticavel bêcco da terra. A mendiga informou-se miudamente da pessoa que enviava a carta, e sahiu, mandando esperar o caminheiro. Pouco depois, voltou ella com a resposta, e o arreeiro partiu a galope.
Era a resposta um grito de alegria. Thereza não reflectiu, respondendo a Simão, que n'aquella noite se festejavam os annos de seu pae, e se reuniam em casa os parentes. Disse-lhe que ás onze horas em ponto ella iria ao quintal, e lhe abriria a porta.
Não esperava tanto o academico. O que elle pedia era fallar-lhe da rua para a janella do seu quarto, e receava impossivel este prazer, que elle avaliava o maximo. Apertar-lhe a mão, sentir-lhe o halito, abraçal-a talvez, commetter a ousadia de um beijo, estas esperanças, tão além de suas modestas e honestas ambições, egualmente o enlevavam e assustavam. Enlevo e susto em corações que se estreiam na comedia humana, são sentimentos congeniaes.
Á hora da partida, Simão tremia, e a si mesmo pedia contas da timidez, sem saber que os encantos da vida, os mais angelicos momentos da alma, são esses lances de mysterioso alvoroço que aos mais ricos de coração succedem em todas as sasões da vida, e a todos os homens, uma vez ao menos.
Ás onze horas em ponto estava Simão encostado á porta do quintal, e a distancia convencionada o arreeiro com o cavallo á rédea. A toada da musica, que vinha das salas remotas alvoroçava-o, porque a festa em casa de Thadeu de Albuquerque o surprendêra. No longo termo de tres annos nunca elle ouvira musica n'aquella casa. Se elle soubesse o dia natalicio de Thereza, espantára-se menos da estranha alegria d'aquellas salas, sempre fechadas, como em dias de mortuorio. Simão imaginou desvairadaraente as chimeras que voejam, ora negras, ora translucidas em redor da phantasia apaixonada. Não ha balisa racional para as bellas, nem para as horrorosas ilusões, quando o amor as inventa. Simão Botelho, com o ouvido collado á fechadura, ouvia apenas o som das flautas, e as pancadas do coração sobresaltado.
V
Balthazar Cominho estava na sala, simulando vingativa indifferença por sua prima. As irmãs do fidalgo e a de mais parentela da casa não deixavam respirar Thereza. Moças e velhas, todas á uma, se repetiam, aconselhando-a a reconciliar-se com seu primo, e dar a seu pae a alegria que o pobre velho tanto rogava a Deus, antes de fechar os olhos. Replicava Thereza que não queria mal a seu primo, nem sequer eslava sentida d'elle; que era sua amiga, e sêl-o-ia sempre em quanto lhe elle deixasse livre o coração.
O velho esperava muito d'aquella noitada de festa. Alguns parentes, presumidos de prudentes, lhe tinham dito que seria proveitoso regalar a filha com os prazeres congruentes á sua idade, dando-lhe ensejo a que ella repartisse o espirito, concentrado n'um só ponto, por diversões em que a natural vaidade se preoccupa, e a força do amor contrariado se vai a pouco e pouco quebrantando. Aconselharam-lhe as reuniões amiudadas, já em sua casa, já na dos seus parentes, para d'este modo Thereza se mostrar a muitos, ser cortejada de todos, e ter em opinião de menos valia o unico homem com quem fallava, e a quem julgava superior a todos. O fidalgo accedeu, mas com difficuldade; porque tinha lá um systema seu de ajuizar das mulheres, e porque vivêra trinta annos de vida libertina e dispendiosa, e se estava agora saboreando na economia e na quietação. Os annos de Thereza eram pela primeira vez festejados com estrondo. A morgada viu então o que era o minuete da côrte, e certos jogos de prendas com que os intervallos n'aquelles tempos, se aligeiravam em delicias, sem fadiga do corpo, nem desagrado da moral.
Mas, de agitada que estava, Thereza não compartia do gôso dos seus hospedes. Desde que soaram as dez horas d'aquella noite, a rainha da festa parecia tão alheada das finezas com que senhoras e homens á competência a lisonjeavam, que Balthazar Coutinho deu fé do dessocêgo de sua prima, e teve a modestia de imaginar que ella se offendêra da indifferença d'elle. Generoso até ao perdão, o morgado de Castro-d'Aire, compondo o rosto com gesto grave e melancolico, dirigiu-se a Thereza, e pediu-lhe desculpa da frieza que elle disse ser como a das montanhas, que tem vulcões por dentro e neve por fóra. Thereza teve a sinceridade de responder que não tinha reparado na frieza de seu primo, e chamou para junto d'ella uma menina, para evitar que a montanha se abrisse em vulcões. Pouco depois ergueu-se, e sahiu da sala.
Eram dez horas e tres quartos. Thereza corrêra ao fundo do quintal, abrira a porta, e, como não visse alguem, tornou de corrida para a sala. No momento, porém, de subir a escada que ligava o jardim á casa, Balthazar Coutinho, que a espiava desde que ella sahiu da sala, chegou a uma das janellas sobre o jardim, bem longe de imaginar que a via. Retirou-se, e entrou com Thereza na sala, ao mesmo tempo, por diversas portas. Decorridos alguns minutos, a menina sahiu outra vez, e o primo tambem. Thereza ouviu, a distancia, o estrepito d'um cavallo, quando passou ao patamar da escada. Balthazar tambem o ouviu, e notou que sua prima, receosa de ser vista e conhecida pela alvura do vestido, levava uma capa ou chaile que a envolvia toda. O de Castro-d'Aire fez pé atraz para não ser visto. Thereza, porém, n'um relance de olhar temeroso, ainda víra um vulto retirar-se. Teve mêdo, e retrocedeu a largar a capa, e entrou na sala, offegante de cansaço e pallida de mêdo.