—Vá por onde veio, e não olhe para traz.
Simão foi indo até encontrar o cavallo. Montou, e esperou os dois inalteraveis guardas que o seguiam a passo vagaroso. Maravilhara-os o subito desapparecimento dos criados de Balthazar, e recearam-se de alguma espera fóra da cidade. O ferrador conhecia o atalho que podia levar os da emboscada ao caminho, e revelou o seu receio a Simão, dizendo-lhe que picasse a toda a brida, que elle e o cunhado lá iriam ter. O academico recebeu com enfado a advertencia, admoestando-os a que o não tivessem em tão vil preço. E acintemente soffreou as rédeas, para não forçar os homens a aligeirar o passo.
—Vá como quizer—disse mestre João—que nós vamos por fóra do caminho.
E subiram a uma rampa de olivaes, para tornarem a descer encubertos por moitas de giestas, cozendo-se aos torcicolos d'uma parede parallela com a estrada.
—O atalho vai acolá onde a serra faz aquelle cotovêllo—disse o ferrador ao cunhado—hão de alli passar, ou já passaram. A estrada vai mesmo na quebrada d'aquelle outeirinho. Os homens é d'alli que lhe vão atirar, encobertos pelos sobreiros. Vamos depressa…
E um pouco descobertos, e outro curvados á sombra das devêzas, chegaram a um vallado d'onde ouviram os passos dos dois homens que atravessavam o pontilhão de um córrego.
—Já não vamos a tempo—disse afflicto o João da Cruz—os homens vão atirar-lhe, porque o cavallo trupa cá muito atraz.
E corriam já sem temor de serem vistos, porque os outros tinham dobrado o outeiro, em cujo valle corria a estrada.
—Os homens vão atirar-lhe…—disse o ferrador.
—Gritemos d'aqui ao doutor que não vá p'ra diante.