—Tenha lá mão, mestre; não vá você atirar-me!—bradou Simão ao ferrador.

—Pois o fidalgo já ahi anda!?. Então está fechado o cêrco. Eu cá vou fazer de furão. Se este nos escapa, não ha nada seguro n'este mundo!

Não se enganaram. O criado de Balthazar Coutinho, quando se atirára desamparado á brenha, desnocára um joelho, e cahira atordoado. O arreeiro não examinou o effeito do tiro, porque atirara á ventura, e achava natural que o fugitivo se não molestasse. Quando volveu a si do aturdimento da queda, o homem arrastou-se lentamente até encontrar um cerrado de arvores silvestres, em que pernoitava a passarinhada. Como os melros cacarejassem esvoaçando, o criado de Balthazar retrocedeu para o mato, cuidando que ahi escaparia; mas o arreeiro jogava enormes calhaus em todas as direcções, e alguns acertavam mais que as balas do seu bacamarte. João da Cruz tirou do bolço da jaqueta um podão, e começou a cortar a selva de carvalhas novas e giestaes que se emmaranhavam em redor do escondrijo. Já cansado, porém, e vendo o pouco luzimento do trabalho, disse ao arreeiro:

—Petisca lume, vai alli dentro buscar um pouco de restolho sêcco, e vamos pegar fogo ao mato, que este ladrão ha de morrer assado.

O perseguido, quando tal ouviu, tirou do maior perigo coragem para fugir, rompendo a espessura e saltando a parede da tapada para o campo de restolho em que o arreeiro andava apanhando palha, e Simão esperava o desfecho da montaria. Correram a um tempo o arreeiro e o academico sobre elle. O fugitivo, sentindo-se alcançado, lançou-se de joelhos e mãos erguidas, pedindo perdão, e dizendo que o amo o obrigára áquella desgraça. Já a coronha do bacamarte do arreeiro lhe ia direita ao peito, quando Simão lhe reteve o braço.

—Não se bate assim n'um homem!—disse o moço—Levanta-te, rapaz!

—Eu não posso, senhor. Tenho uma perna quebrada, e estou aleijado para a minha vida.

N'este comenos chegou o ferrador, e exclamou:

—Pois este tratante ainda está vivo!

E correu sobre elle com o podão.