—Que tenho eu com os homens que appareceram mortos?
—Para que está a fingir-se de novas?! Pois eu não sei que esses homens eram criados do primo da tal senhora? Parece que v. s.^a desconfia de mim, e está a querer guardar um segredo que eu tomára que ninguem soubesse, para que meu pae e o senhor Simão não tenham alguns maiores trabalhos…
—Tem razão, Marianna, eu não devia esconder de si o mau encontro que tivemos…
—E Deus queira que seja o ultimo!… Tanto tenho pedido ao Senhor dos Passos que lhe dê remedio a essa paixão!… O peor futuro eu que ainda está por passar…
—Não, menina, isto acaba assim: eu vou para Coimbra, logo que esteja bom, e a menina da cidade fica em sua casa.
—Se assim fôr, já prometti dois arrateis de cêra ao Senhor dos Passos; mas não me diz o coração que v. s.^a faça o que diz…
-Muito agradecido lhe estou-disse Simão commovido—pelo bem que me deseja. Não sei o que lhe fiz para lhe merecer a sua amizade.
—Basta vêr o que seu paesinho fez pelo meu—disse ella, limpando as lagrimas.—O que seria de mim, se me elle faltasse, e se fosse á forca como toda a gente dizia!… Eu era ainda muito nova quando elle estava na enxovia. Teria treze annos; mas estava resolvida a atirar-me ao poço, se elle fosse condemnado á morte. Se o degradassem, então ia com elle, ia morrer onde elle fosse morrer. Não ha dia nenhum que eu não peça a Deus que dê a seu pae tantos prazeres como estrellas tem o ceo. Fui de proposito á cidade para beijar os pés a sua mãesinha, e vi suas manas, e uma, que era a mais nova, deu-me uma saia de lapim, que eu ainda alli tenho guardada como uma reliquia. Depois, cada vez que ia á feira, dava uma grande volta para vêr se acertava de encontrar a senhora D. Ritinha á janella; e muitas vezes vi o senhor Simão. E talvez não saiba que eu estava a beber na fonte, quando v. s.^a, ha dois para tres annos, deu muita pancada nos criados, que era mesmo um reboliço que parecia o fim do mundo. Eu vim contar ao pae, e elle até cahiu ao chão a dar risadas como um doido… Depois nunca mais o vi senão quando v. s.^a entrou com o tio de Coimbra; mas já sabia que vinha para esta desgraça, porque tinha tido um sonho, em que via muito sangue, e eu estava a chorar, porque via uma pessoa muito minha amiga a cahir n'uma cova muito funda…
—Isso são sonhos, Marianna…
—São sonhos, são; mas eu nunca sonhei nada que não acontecesse. Quando meu pae matou o almocreve, tinha eu sonhado que o via a dar um tiro n'outro homem; antes de minha mãe morrer, acordei eu a chorar por ella, e mais ainda viveu dois mezes… A gente da cidade ri-se dos sonhos; mas Deus sabe o que isto é… Ahi vem meu pae… Senhor dos Passos! não vá ser alguma má nova!…