E ficou pensando na sua espinhosa situação. Deviam de occorrer-lhe ideias afflictivas, que os romancistas raras vezes attribuem aos seus heroes. No romance todas as crises se explicam, menos a crise ignobil da falta de dinheiro. Entendem os novellistas que a materia é baixa e plebea. O estylo vai de má vontade para coisas razas. Balzac falla muito em dinheiro; mas dinheiro a milhões: não conheço, nos cincoenta livros que tenho d'elle, um galã n'um entre-acto da sua tragedia a scismar no modo de arranjar uma quantia com que pague ao alfaiate, ou se desembarace das rêdes que um usurario lhe lança, desde a casa do juiz de paz a todas as esquinas, d'onde o assaltam o capital e juro de oitenta por cento. D'isto é que os mestres em romances se escapam sempre. Bem sabem elles que o interesse do leitor se gela a passo igual que o heroe se encolhe nas proporções d'estes heroesinhos de botequim, de quem o leitor dinheiroso foge por instincto, e o outro foge tambem, porque não tem que fazer com elle. A coisa é vilmente prosaica, de todo o meu coração o confesso. Não é bonito o deixar a gente vulgarisar-se o seu heroe a ponto de pensar na falta de dinheiro, um momento depois que escreveu á mulher estremecida uma carta, como aquella de Simão Botelho. Quem a lêsse diria que o rapaz tinha postadas, em differentes estações das estradas do paiz, carroças e folgadas parelhas de mulas, para transportarem a Paris, a Veneza, ou ao Japão a bella fugitiva! As estradas, n'aquelle tempo, deviam ser boas para isso; mas não tenho a certeza de que houvessem estradas para o Japão. Agora creio que ha, porque me dizem que ha tudo.
Pois eu já lhes fiz saber, leitores, pela bôca de mestre João, que o filho do corregedor não tinha dinheiro. Agora lhes digo que era em dinheiro que elle scismava quando Marianna lhe trouxe o caldo rejeitado.
A meu vêr, deviam attribulal-o estes pensamentos:
Como pagaria a hospitalidade de João da Cruz?
Com que agradeceria os desvelos de Marianna?
Se Thereza fugisse, com que recursos proveria á subsistencia de ambos!
Ora, Simão Botelho sahira de Coimbra com a sua mesada, que não era grande, e quasi lh'a absorvêra o aluguel da cavalgadura, e a groseta generosa que déra ao arreeiro, a quem devia o conhecimento do prestante ferrador.
As reliquias d'esse dinheiro déra-as elle á portadora da carta n'aquelle dia. Má situação!
Lembrou-se de escrever á mãe. Que lhe diria elle? Como explicaria a sua residencia n'aquella casa? D'este modo não iria elle dar indicios da morte mysteriosa dos dois criados de Balthazar Coutinho?
Além de que, sobejamente sabia elle que sua mãe o não amava; e, a mandar-lhe algum dinheiro em segredo, seria escassamente o necessario para a jornada até Coimbra. Péssima situação!