Fernão Botelho, pae do juiz de fóra, sahiu á frente do prestito para dar a mão á nora, que apeava da liteira, e conduzil-a á de casa. D. Rita, antes de vêr a cara de seu sogro, contemplou-lhe a olho armado as fivelas de aço, e a bolsa do rabicho. Dizia ella depois que os fidalgos de Villa Real eram muito menos limpos que os carvoeiros de Lisboa. Antes de entrar na liteira avoenga de seu marido, perguntou, com a mais refalsada seriedade, se não haveria risco em ir dentro d'aquella antiguidade. Fernão Botelho asseverou a sua nora que a sua liteira não tinha ainda cem annos, e que os machos não excediam a trinta.

O modo altivo como ella recebeu as cortezias da nobreza—velha nobreza que para alli viera em tempo de D. Diniz, fundador da villa—fez que o mais novo do prestito, que ainda vivia ha doze annos, me dissesse a mim: «Sabiamos que ella era dama da Senhora D. Maria I; porém, da soberba com que nos tractou, ficamos pensando que seria ella a propria rainha.» Repicaram os sinos da terra quando a comitiva assomou á Senhora de Almudena. D. Rita disse ao marido que a recepção dos sinos era a mais estrondosa e barata.

Apearam á porta da velha casa de Fernão Botelho. A aia do paço relanceou os olhos pela fachada do edificio, e disse de si para si: «É uma bonita vivenda para quem foi criada em Mafra e Cintra, na Bemposta e Queluz.»

Decorridos alguns dias, D. Rita disse ao marido que tinha mêdo de ser devorada das ratasanas; que aquella casa era um covil de feras; que os tectos estavam a desabar; que as paredes não resistiriam ao inverno; que os preceitos de uniformidade conjugal não obrigavam a morrer de frio uma esposa delicada e affeita ás almofadas do palacio dos reis.

Domingos Botelho conformou-se com a estremecida consorte, e começou a fabrica de um palacete. Escassamente lhe chegavam os recursos para os alicerces: escreveu á rainha, e obteve generoso subsidio com que ultimou a casa. As varandas das janellas foram a ultima dadiva que a real viuva fez á sua dama. Quer-nos parecer que a dadiva é um testemunho até agora inedito da demencia de D. Maria I.

Domingos Botelho mandara esculpir em Lisboa a pedra de armas; D. Rita, porém, teimara que no escudo se abrisse um emblema das suas; mas era tarde, porque já a obra tinha vindo do esculptor, e o magistrado não podia com segunda despeza, nem queria desgostar seu pae, orgulhoso de seu brasão. Resultou d'aqui ficar a casa sem armas, e D. Rita victoriosa[2].

O juiz de fóra tinha alli parentella illustre. O aprumo da fidalga dobrou-se até aos grandes da provincia, ou antes houve por bem levantal-os até ella. D. Rita tinha uma côrte de primos, uns que se contentavam de serem primos, outros que invejavam a sorte do marido. O mais audacioso não ousava fital-a de rosto, quando o ella remirava com a luneta em geito de tanta altivez e zombaria, que não será estranha figura dizer que a luneta de Rita Preciosa era a mais vigilante sentinella da sua virtude.

Domingos Botelho desconfiava da efficacia dos merecimentos proprios para cabalmente encher o coração de sua mulher. Inquietava-o o ciume; mas suffocava os suspiros, receando que Rita se désse por injuriada da suspeita. E razão era que se offendesse. A neta do general frigido no caldeirão sarraceno ria dos primos, que, por amor d'ella, arriçavam e empoavam as cabelleiras com um desgracioso esmero, ou cavalleavam estrepitosamente na calçada os seus ginetes, fingindo que os picadores da provincia não desconheciam as graças hippicas do marquez de Marialva.

Não o cuidava assim, porém, o juiz de fóra. O intriguista que lhe trazia o espirito em ancias era o seu espelho. Via-se sinceramente feio, e conhecia Rita cada vez mais em flôr, e mais enfadada no trato intimo. Nenhum exemplo da historia antiga, exemplo de amor sem quebra entre o esposo deforme e a esposa linda, lhe occorria. Um só lhe mortificava a memoria, e esse, com quanto fosse da fabula, era-lhe avêsso, e vinha a ser o casamento de Venus e Vulcano. Lembravam-lhe as rêdes que o ferreiro coixo fabricára para apanhar os deuses adulteros, e assombrava-se da paciencia d'aquelle marido. Entre si, dizia elle, que, erguido o véo da perfidia, nem se queixaria a Jupiter, nem armaria ratoeiras aos primos. A par do bacamarte de Luiz Botelho, que varára em terra o alferes, estava uma fileira de bacamartes em que o juiz de fóra era entendido com muito superior intelligencia á que revelava na comprehensão do Digesto e das Ordenações do Reino.

Este viver de sobresaltos durou seis annos, ou mais seria. O juiz de fóra empenhára os seus amigos na transferencia, e conseguiu mais do que ambicionava: foi nomeado provedor para Lamego. Rita Preciosa deixou saudades em Villa Real, e duradoura memoria da sua soberba, formosura e graças de espirito. O marido tambem deixou anecdotas que ainda agora se repetem. Duas contarei sómente para não enfadar. Acontecèra um lavrador mandar-lhe o presenle de uma vitella, e mandar com ella a vacca para se não desgarrar a filha. Domingos Botelho mandou recolher á loja a vitella e a vacca, dizendo que quem dava a filha dava a mãe. Outra vez, deu-se o caso de lhe mandarem um presente de pasteis em rica salva de prata. O juiz de fóra repartiu os pasteis pelos meninos, e mandou guardar a salva, dizendo que receberia como escarneo um presente de dôces, que valiam dez patacões, sendo que naturalmente os pasteis tinham vindo como ornato da bandeja. E assim é que ainda hoje, em Villa Real, quando se dá um caso analogo de ficar alguem com o conteúdo e continente, diz a gente da terra: «Aquelle é como o doutor brocas.»