—Vem aqui insultal-o, meu tio!—respondeu Balthazar—Tem a petulancia de se apresentar a sua filha a confortal-a na sua malvadez! Isto é de mais! Olhe que eu esmago-o aqui, su villão!
—Villão é o desgraçado, que me ameaça, sem ousar avançar para mim um passo—redarguiu o filho do corregedor.
—Eu não o tenho feito—exclamou enfurecidamente Balthazar—por entender que me avilto, castigando-o, na presença de criados de meu tio, que tu pódes suppôr meus defensores, canalha!
—Se assim é—tornou Simão, sorrindo—espero nunca me encontrar de rosto com s. s.^a. Reputo-o tão covarde, tão sem dignidade, que o hei de mandar azorragar pelo primeiro ganha-pão das esquinas.
Balthazar Coutinho lançou-se de impeto a Simão. Chegou a apertar-lhe a garganta nas mãos; mas depressa perdeu o vigor dos dedos. Quando as damas chegaram a interpôr-se entre os dois, Balthazar tinha o alto do craneo aberto por uma bala, que lhe entrára na fronte. Vacillou um segundo, e cahiu desamparado aos pés de Thereza.
Thadeu de Albuquerque gritava a altos brados. Os liteireiros e criados rodearam Simão, que conservava o dedo no gatilho da outra pistola. Animados uns pelos outros e pelos brados do velho, iam lançar-se ao homicida, com risco de vida, quando um homem, com um lenço pela cara, correu da rua fronteira, e se collocou, de bacamarte aperrado, á beira de Simão. Estacaram os homens.
—Fuja, que a égua está ao cabo da rua—disse o ferrador ao seu hospede.
—Não fujo… Salve-se, e depressa—respondeu Simão.
—Fuja, que se ajunta o povo, e não tardam ahi soldados.
—Já lhe disse que não fujo—replicou o amante de Thereza, com os olhos postos n'ella, que cahira desfallecida sobre as escadas da igreja.