Theodora, a não poder ser feliz, exultava com as venturas da sua amiga. Animou-a á temeridade de receber o atrevido rapazola de Tras-os-Montes, idolatra d'um personagem de romance, unico que em sua vida lêra, o Lovelace, de quem se propunha imitar o entrajamento de mulher. O tolo! Ainda bem que as asneiras, copiadas dos romances, costumam ter, na vida real, umas sahidas muito desgraçadas ou irrisorias! Ainda bem, para desdouro dos livros desmoralisadores, e luzimento d'outros livros de san moral, que só fazem mal ao publicador que os não vende.

Este Alfredo, que vivia occulto nas cercanias de Braga, applaudido por Libana em seu projecto, foi á sua terra preparar os vestidos, e ensaiar-se em tregeitos mulheris.

Libana tinha uns irmãos, oriundos do mesmo tronco de pae e mãe, os quaes pelos modos, não tinham de que espantar-se do descomedimento e desatino da filha e irman; d'onde vinha o serem elles grandemente avelhacados, astustos, e espiões das tramoias de Alfredo.

A villa era pequena e de soalheiro. Correu logo por algumas boccas, até aos ouvidos dos interessados, o estar-se fazendo roupinhas e saiotes, e outros atafaes de mulher, afeiçoados ao corpo de Alfredo. Sem detença, um dos irmãos de Libana sahiu para Braga; o outro ficou d'atalaia aos movimentos do imitador de Lovelace. O que se escondera em Braga foi avisado a tempo que Alfredo vinha de jornada. Uma engenhosa combinação com as authoridades lançou a rede tão a ponto que o infeliz foi capturado na portaria das Ursulinas, vestido de camponeza transmontana, e d'alli, entre baionetas, e escoltado de rapazio, percorreu todas as estações judiciarias desde o regedor até ás caricias do carcereiro.

As religiosas, conscias do escandalo, requereram ao prelado bracharense a expulsão da reclusa que deshonrava o convento e contaminava de sua desmoralisação as outras meninas. Foi, portanto, Libana entregue a seu irmão, que a levou para casa. Esperava-se geralmente que esta donzella, agourada para estremados desastres, tivesse um fim de exemplo a mulheres desgarradas do trilho da virtude. Os prognosticos da opinião publica erraram, como se ha-de vêr n'um futuro livro.

A gente não sabe ainda bem como este mundo está feito.

[VI]

O escandalo, que felizmente abortou á portaria do convento, poz de sobre-rolda os paes de familia, que tinham meninas a educar nas Ursulinas, e deu ás insomnes freiras um sexto sentido de observação. Dentro do mosteiro reinava a opinião de que Theodora tinha bastante capacidade para tomar criada, conforme o gorado systema de Libana. Além d'isto, depois da expulsão da transmontana, a morgadinha, em vez de quebrar de orgulho e reportar-se, enfuriou-se mais, e sahia com invectivas e chacotas ás freiras velhas, clamando a vozes descompostas que a mandassem embora, se lhes não servia assim. A communidade offendida e esgotada de paciencia, consultado o tutor da educanda, assumiu o uso ou o abuso dos antigos poderes monasticos, e encerrou-a no seu quarto, com ameaças de a fecharem no tronco. Theodora esmoreceu diante da força mixta das freiras e dos padres capellaens, que promettiam supprir com o pulso a inefficacia da eloquencia persuasiva.

Vagamente informado da situação da sua amada, Affonso de Teive foi á portaria do convento, no heroico proposito de ir arrancar a victima de sobre as aras da theocracia despotica. A porteira, senhora de oculos e de muita virtude, offereceu peito de martyr ás injurias impias do acriançado amante. Porém, como quer que o acaso alli encaminhasse um cabo de policia, quando Affonso gesticulava e vociferava um menos mau improviso contra os conventos, o cabo, com as mãos atadas na cabeça, correu ao regedor, e este acudiu no supremo lance, já quando o allucinado alumno de rhetorica, estrondeava na porta valentes murros, chamando Theodora a clamorosos gritos.

Travado pelos braços pujantes das authoridades, Affonso não pôde resistir á surpreza do assalto. Escabujou e esbraveou em quanto as forças da raiva o aqueceram; a final cahiu exanime nos braços da lei, balbuciando ainda «Theodora!» Estava a instaurar-se-lhe processo, quando a fidalga de Ruivães chegou a desfazer com a sua respeitavel presença, e auxilio dos mais importantes cavalheiros de Braga, a criminalidade pueril do filho.