—Que perfeito rapaz elle se fez! Ninguem havia de dizer o que sahia d'alli! Em Braga não passeia outro que o valha, nem quem o exceda.

—Seu primo é uma figura que dá na vista!—ajuntava a mais maliciosa das freiras para não ficar em peccado com a sua consciencia.

Theodora, quando acordou na manhã seguinte, viu duas imagens: uma a ennevoar-se e esvair-se como sonho que a memoria não póde já reter: era a imagem de Affonso; outra avultou-lhe completa nos menores traços, radiosa, animada e animadora: era a imagem de Eleuterio Romão dos Santos.

Ergueu-se alegre, abriu a janella do seu cubiculo, aspirou o ar do céo que nunca lhe parecera de tão lindo azul, e invejou as aves que volitavam mui serenas gorgeando, ou regirando umas jubilosas voltas, que á menina se figuraram as delicias da liberdade.

Amava ella Eleuterio Romão?! Não amava, disse-o ella, e eu juro nas palavras de Theodora. O que ella amava era a liberdade; os anhelos de sua alma anciavam sofregos um viver, que o temperamento lhe estava pedindo a gritos, gritos que a sociedade não escuta, não acredita, e não perdôa. O que ella via em Eleuterio era o homem já desfigurado da repulsão primeira; o homem aceitavel como libertador de um seio que quer encher-se de perfumes, sem se dar em servidão ao homem, que lhe vai descancellar os adytos do mundo. Assim é que muitas mulheres tem amado aquelles que as salvam; d'este amor, assim chamado por não haver mais elastico epitheto que dar á cousa, é que surdem os irremediaveis infortunios, os odios irreconciliaveis, e as affrontas que levantam as campas, encerram algozes e victimas, e ficam ainda de pé sobre ás lousas infamadas, pregoando o opprobrio dos filhos gerados no crime e amaldiçoados na infamia de suas mães... Colho as vélas; que, n'este rumo, ia varar em semsaboria encapotada em moralisação: cousa duas vezes importuna.

Conseguira, n'este tempo, a senhora de Ruivães que uma secular das Ursulinas entregasse uma carta á morgada, carta de esperanças, alento, e consolações, com miudas noticias dos padecimentos do filho em Ruivães, e das penas e receios que o desesperavam em Lisboa. Terminava a carta promettendo á menina que, antes de cumpridos dous annos, os votos de todos se haviam de realisar diante de Deus, com tanto que Theodora con- servasse firmeza, coragem, e constancia.

—Dous annos!—disse entre si a morgada—Esperar dous annos n'este purgatorio!... Se Affonso me ama, porque não ha-de vir já roubar-me d'este carcere? Dous annos! e viveria eu aqui tanto tempo á espera de não sei que?! Eu captiva aqui dous annos, e elle em Lisboa a divertir-se!... Se ao menos eu o esperasse em liberdade, os dias iriam menos arrastados; mas, privada dos prazeres que elle está gozando, esperar um futuro talvez duvidoso... é loucura! Quem me diz a mim que Affonso, n'este espaço tamanho de tempo, se não apaixona por outra? Se me elle ama, como dizia, e a mãe me diz agora, quem nos impede de casarmos já? Se somos muito novos, lá virá occasião de envelhecermos. O que eu tenho, meu é já; ninguem m'o rouba por eu casar contra vontade do conselho de familia... Dous annos!...

E, n'aquelle dia e nos dous seguintes, Theodora, de cinco em cinco minutos, dizia: Dous annos! e ficava meditativa, até de novo exclamar: Dous annos!

Respondeu a morgada á mãe de Affonso que a sua saude se havia perdido na oppressão e dissabores d'aquella vida, em que tão contrariada se via. Dizia mais que a precisão de se livrar de tal captiveiro a obrigaria a dar-se como esposa a um homem que ella não amasse. Queixava-se da ausencia e silencio de Affonso, e citava o namorado da sua amiga Libana como exemplo de rapazes apaixonados. Concluia desejando a Affonso todas as venturas d'este mundo, em quanto ella se deliberava a experimentar todas as desditas.

A virtuosa de Ruivães, lendo o final da inesperada carta, acolheu-se á sua capella, e longo tempo esteve em joelhos pedindo á Virgem que defendesse Theodora dos seus funestos instinctos.