E Affonso, escondido nas sombras escuras de Bellas, chorava por Theodora, e, alteando o rosto ao céo, pedia ao Senhor que lhe visse as lagrimas, e houvesse piedade d'ellas.
O desembargador inquietava-se com as longas ausencias do sobrinho; mas não o contrariava. As filhas é que mais se queixavam da selvatiqueza do primo, que se ia á aldêa a conversar com arvores e penedos, e deixava suas primas que tanto se interessavam em divertil-o. N'estes queixumes das gentis meninas, transparecia um mal disfarçado despeito de todas e de cada uma. Qualquer d'ellas, a resguardo das outras, havia pensado em ser a mais amoravelmente olhada dos olhos de Affonso, o galhardo moço, que tantas graças tinha, como se lhe não bastasse ser rico! O amador da orphan das Ursulinas, se podesse suspeitar que suas primas conjuravam em disputar-lhe uns grãosinhos do incenso de Theodora, não faria menos que odial-as. Estes escrupulos são a religião, o ascetismo dos illuminados de amor, illuminados lhes chamarei eu em respeito do leitor maior de trinta annos, e compaixão de mim, que ambos nós já fomos tambem illuminados, e não é por nossa vontade que estamos agora atolados n'este lamaçal, onde, por sobre todas as desgraças e vergonhas, ainda queremos vêr na superficie lamacenta e torva espelharem-se as estrellas do céo da nossa mocidade!
Affonso esperava ainda. Sua mãe mentia-lhe. Seu tio, aferrado ás tradições de avós, devia de tramar a quebra do casamento destinado com uma menina, apenas formosa, rica, e pura como um anjo a quizera para si. É o que Affonso pensava do silencio da mãe, e das reflexões do velho.
Estava, uma tarde de Agosto, Affonso em Bellas. Desde o dia anterior que não voltára a Lisboa. O tio, como elle não voltasse ao segundo dia, metteu-se á sua carruagem, e foi procural-o, e entregar-lhe cartas recebidas do norte. Uma era de sua mãe, outra d'um seu tio paterno, fidalgo de Barcellos, o mais acerrimo impugnador do casamento de um Teive Lacerda Corrêa Figueirôa, com uma mulher da Fervença, que, dizia elle, por nome não perca.
A carta da mãe dizia simplesmente:
«Não era digna de ti, meu filho, Deus bem m'o tinha dito, e o coração estalava-me em ancia de t'o dizer. Agora, meu filho, ou cumpre o que o tio Fernão te pede, ou faz o que a honra te aconselhar.» E poucas mais expressões de conforto religioso; mas insinuantes como sabem dizel-as as mães, que nunca se temem de corar diante de seus filhos.
A carta de Fernão de Teive era mais prolixa versando quasi toda sobre o casamento de Theodora com Eleuterio.
Parecem-me dignos de extracto uns relanços d'esta carta, que eu copiei do original. Não parecem de fidalgo velho, e estranho ao estylo picaresco do folhetim:
«....... Eu estava em Braga, de visita aos primos Vasconcellos do Tanque, e acaso vi o cortejo nupcial da morgada sem morgadio. Predominavam as eguas de albardão e rabicho na parte equestre do prestito, que era luzido, por que os arreios brilhavam, principalmente as barbellas. O noivo ia desencabrestado, visto que tirára bula para isso, quando tirou dispensa do parentesco. A morgada, com cara relamboria, levava ares fulos; e procurava as estrellas ao pino do meio dia, pasmada de vêr que ellas não vinham á janella admiral-a. Eu, lembrando-me que a vergontinha da Fervença esteve a querer trepar pelos troncos de Farelães e Numães, dei louvores a Deus, e parabens aos nossos antepassados!.............