Amor de salvação, em muitos casos obscuros, é o amor que excrucia e deshonra. Então é que o senso intimo amostra ao coração a sua ignominia e miseria. A consciencia regenera-se, e o coração, rehabilitado, avigora-se para o amor impolluto e honroso. Assim é que as enseadas serenas estão para além das vagas montuosas, que lá cospem o naufrago aferrado á sua tabua. Sem o impulso da tormenta, o naufrago pereceria no mar alto. Foi a tempestade que o salvou.
Além de que a felicidade, como historia, escreve-se em poucas paginas; é idyllio de curto folego: no sentir intraduzivel da consciencia é que ella encerra epopeas infinitas;—em quanto que a desgraça não demarca balizas á experiencia nem á imaginação.
Para o amor maldito, duzentas paginas: para o amor de salvação as poucas restantes do livro. Volume, que descrevesse um amor de bem-aventuranças terrenas, seria uma fabula.
[AMOR DE SALVAÇÃO]
[I]
Estava claro o céo, tepido o ar, e as bouças e montados floridos. O mez era o de Dezembro, de 1863, em vespera do Natal.
A gente das cidades pergunta-me em que paiz do mundo florecem, em Dezembro, bouças e montados.
Respondo que é em Portugal, no perpetuo jardim do mundo, no Minho, onde os inventores de deuses teriam ideado as suas theogonias, se não existisse a Grecia. No Minho, ao menos, se buscariam aguas lympidas para Castalias e Hipocrenes. No Minho, a Cythéra para a mãe dos amores. Nos arvoredos d'esta região de sonhos, de poemas, e rumores de conversarem espiritos, é que os satyros, as dryades e os sylvanos sahiriam a cardumes dos troncos e regatos: que tudo aqui parece estar dizendo que a natureza tem segredos defesos ao vulgo, e como a entreabrirem-se á phantasia de poetas.
Mas que flôres... quer o leitor saber que flôres vestem os calvos e denegridos serros do Minho, em Portugal. São flôres a festões, cachos de corolas amarellas, viçosas, e aveludadas como as dos arbustos cultivados em jardins: é a florescencia dos tojaes, plantas repulsivas por seus espinhos, alegres de sua perpetua verdura, unicas a enfeitarem a terra quando a restante natureza vegetal amarellece, definha, e morre. E d'esse privilegio como que o agreste arbusto se está gozando soberbamente; pois que vos amostra as suas pinhas de flôres, e com os inflexiveis espinhos vos defende o despojal-o d'ellas.