—Má impressão!—respondeu Affonso de Teive—pessima impressão! Desviei involuntariamente os olhos d'ella: a razão sahiu por momentos do seu chiqueiro, e teve dó da alienação da minha pobre alma. Eleuterio, por ultimo, rematou assim: «Não tenho mulher. Vou para minha casa, e vai tu para a tua.» E sahiu. Theodora voltou-se para mim, atirando a pistola sobre a mesa, e disse: «Estou livre. Aqui me tens, Affonso. Aqui está a tua Palmyra, com o virgem coração que lhe conheceste, mais valioso do que era, mais depurado dos instinctos maus, graças aos trabalhos que me angustiaram a vida. Queres-me assim, Affonso?...

—Abraçaste-a fervorosamente, convulsamente—interrompi eu.

—Não: disse-lhe com uma falsa graça no rosto:—quero-te assim: partiremos hoje mesmo para Lisboa. «E os meus fatos, as minhas joias?—perguntou ella—Tenho brilhantes que eram de minha mãe.»—Deixa-os. Terás brilhantes, se elles forem precisos á tua felicidade—«A minha felicidade!—exclamou Theodora, ajoelhando-se-me de mãos postas—a minha felicidade é uma choça comtigo, no ermo, no isolamento de todos os prazeres da sociedade»—Ergui-a com amor. Tocou-me o contraste d'aquella humildade com a arrogancia da resistencia ao marido.

—A esta procella de commoções violentas, seguiu-se um intervallo de silencio morno, concentração por ventura dolorosa em que os nossos olhares mutuamente se interrogavam. Eu via minha santa mãe, e a purissima imagem de minha prima. Theodora não sei o que via: póde ser que estivesse lendo a pagina negra do seu destino, voltada pela mão do Senhor. Eu de mim esforçava o contentamento no rosto: os olhos viam-na embellezados; o ambiente escaldante que ella aquecia com o seu halito coava-me lume até ás medullas dos ossos; mas o formidavel grito da moral repercutia-me no senso intimo da minha queda. Desgraçadas e atrozes ligações as que principiam assim! É que a sentença da justiça divina foi já lavrada.

Theodora abriu a janella da sala e aspirou com força; encostou-se ao peitoril, com os olhos cravados nos cabeços da serra da Tranqueira.

—Em que meditas, Palmyra?—perguntei-lhe eu.

—Em minha mãe, que era virtuosa como a tua—respondeu ella.

Esta dôr nobre, tão singelamente revelada, fez-me bem ao coração. Commoveu-me aquelle dizer de mulher, no tom da maviosa feminilidade que sôa tão brando e compadecedor nas almas de rija tempera, como era a minha. Fallamos de nossas mães, e com tantas caricias de expressão saudosa, que terminamos, beijando um do outro os olhos cheios de lagrimas.

No mesmo dia, por volta da tarde, sahimos caminho de Lisboa.