«—Póde! exclamou padre Joaquim—póde, que o snr. Affonso não ha-de desobedecer á vontade de seu tio! Vamos! a fidalga ainda lhe não deu o abraço que o snr. Fernão de Teive deixou ao filho de sua santa irmã.

«Abraçou-me Mafalda. E eu apertei-a ao seio com arrebatamento, e senti a sua face nos meus labios.

«—Agora, fallo eu—disse o clerigo—O instituto das irmãs da caridade é um santo instituto, nenhuma duvida lhe ponho, pelo que tenho ouvido contar dos heroismos de caridade, que as servas de S. Vicente de Paulo praticam. Assim é; mas a conquista do céo consegue-se com a virtude, e a virtude é uma em toda a parte, e em todas as situações. As irmãs da caridade são bemquistas do Senhor; mas muitas almas elege o Senhor, sem as submetter á prova dos sacrificios e abnegação do santo instituto do servo de Deus. A snr.ª D. Eulalia, que Deus tem, era uma virtuosa, e piamente creio que santa senhora. Pois a sua vida de esposa e mãe não lhe tolheu que alcançasse o paraiso com muitas obras boas que fez, sem as andar derramando pelo mundo. A mãe da snr.ª D. Mafalda foi outra senhora casada e muito amante de seu esposo; pois, se a virtude é a prophecia infallivel da bemaventurança, as duas virtuosas senhoras lá estão com Deus. E agora lhes direi eu o que as santas pedem ao Senhor, vendo assim os seus dous filhos a ouvirem o pobre padre pregar sem encommenda do sermão. Eu lhes digo que ellas estão pedindo a Deus que os case, que os encha de bençãos, e de filhos. Vamos! eu tambem levanto as minhas mãos fazendo os mesmos rogos ao Senhor! Meu Deus! permitti que a minha voz se ajunte á das santas que vos pedem a felicidade d'estes dous filhos! Permitti que eu os veja ditosos, e que estas lagrimas de velho m'as enxuguem elles com a sua alegria!

«Quando o sacerdote, magestoso pela postura, se voltou para nós, latejava o meu coração na face de Mafalda; e eu inclinado sobre o rosto pallido da virgem, murmurava estas palavras: «Sim, sim, meu Deus, ouvi as preces de nossas mães!»

«Padre Joaquim de S. Miguel aproximou-se de nós, e disse com jovial aspeito:—Eu não quero estar em Paris muito tempo, meninos. Vamos embora, cuidar da dispensa, que leva algum tempo. Temos lá o outono do Minho á nossa espera. Diga a fidalga o que determina.

«Mafalda olhou para mim com o sorriso de santa, que um esculptor phantasiasse na contemplação e audição de anjos e harmonias do céo. O padre acudiu logo, exclamando alegremente: «O noivo é quem decide! Snr. Affonso, quando partimos d'esta barafunda de Paris, que me põe os miolos a arder?...

«—Ámanhã!—respondi eu.—Ámanhã—exclamou Mafalda—Pois sim; meu Affonso, ámanhã... Temos lá as nossas arvores... a nossa infancia...

«A nossa felicidade sem fim...—atalhei eu.

[CONCLUSÃO]

Entreluzia a manhã pelos resquicios e fendas das janellas do nosso quarto na estalagem da snr.ª Joanninha de Guimarães.