—Avósinha, avósinha,—gritava Rosa assustada,—volte a si, que lh'o peço eu; mais um pequeno esforço e chegaremos a S. Cosme.
A cega não deu accordo de si.
—Avósinha,—continuou Rosa chorando, e cobrindo-a de beijos,—se me abandona, que hei-de fazer? Quer que eu morra de paixão?
—Morrer, tu, minha Rosinha,—disse a cega levantando-se.—Oh! meu Deus, não permittaes tal.
—Então levante-se que lh'o peço eu; se fica aqui mais tempo o frio matal-a-ia. Em S. Cosme nos aqueceremos.
—Ai de mim,—disse a cega, levantando-se ajudada de Rosa,—e a snr.ª D. Thereza receber-nos-ha?
—Ha-de receber sim, minha avósinha, eu lh'o afianço. Não creio que a boa snr.ª D. Thereza nos despeça. Quando eu lhe ia vender flôres silvestres, que apanhava no monte, abraçava-me, e dizia-me muitas vezes, que desejava que eu fosse sua filha.
—Não duvido que ella te receba, porque és muito linda e agradavel; agora o que eu não creio é que me receba a mim, que sou uma velha e cega, que para nada sirvo.
—Se assim acontecer, voltaremos á nossa aldêa, e os bons lavradores, que conheceram meus paes, terão piedade de nós, soccorrer-nos-hão, e eu trabalharei para lhes pagar, o que elles vos derem.
A avó, muito commovida, apertou ao coração a pequena, e murmurou palavras de ternura e gratidão; e reanimada por esta felicidade, que Rosa lhe tinha feito experimentar, retomou com passo mais firme o caminho de S. Cosme.