II.

D. Thereza de Sousa, e mais algumas visinhas, que se tinham reunido para serandar, acercaram-se das duas infelizes. Depois de lhe ter ministrado todos os cuidados necessarios para as reanimar, como o seu principal mal era a fome, mandou-lhe dar um bom caldo, e acommodal-as a um dos cantos do lar, em que ardia uma grande fogueira.

—Agora, Rosinha,—disse D. Thereza, ameigando-a,—conta-nos, como a esta hora, e com este tempo vieste até aqui com esta boa mulher.

—Desculpai, minha boa senhora,—disse a cega,—Rosinha é minha neta.

—Sim, snr.ª D. Thereza, é minha avó, de quem tantas vezes tenho fallado a v. exc.ª e...

—Então porque não continuas?—lhe replicou D. Thereza.

A pequena levantou para D. Thereza os seus lindos olhos azues, com uma tal expressão de supplica, que a commoveu.

—Falla, falla, minha menina. Não tenhas receio. Queres pedir-me alguma cousa, não é assim?

—Vêde, minha boa senhora,—disse Rosa, contendo as lagrimas a custo,—eu e minha avó, somos muito desgraçadas. Meu pai, que era rachador de lenha, feriu-se pelo S. João em uma perna com o machado. Minha mãi mandou-me chamar a toda a pressa o snr. Pereira, que é um homem muito entendido. Fui, o mais depressa que pude, e quando cheguei a casa do snr. Pereira estava elle para sahir, e não queria vir commigo para não torcer o seu caminho; mas eu tanto lhe pedi, que sempre me acompanhou. Quando viu a perna a meu pai, logo disse, que estava muito mal, e que não promettia cural-o. Duas semanas depois veio á ferida uma molestia, de que me não lembra agora o nome, e meu pai morreu.

Rosa calou-se chorando, e a cega tambem soluçava. D. Thereza abraçou a rapariguinha, apertou a mão á pobre velha, e disse: