Jorge não sabia dançar, porque não tivera tempo de aprender esse appendiculo grutesco da boa educação. Muitas vezes lhe dissera o tio padre, authorisado pelo oratoriano Manoel Bernardes, que danças eram ansas do demonio armadas á alma.
Não se glorie, porém, o crendeiro egresso de ter instillado no animo do sobrinho o horror das mazurcas. Jorge não dançava porque não sabia se quer a nomenclatura d'essa galharda tolice de que por vezes impende o accesso ás almas, e o passar-se uma noite menos tediosa n'um salão em que o espirito se retouça em piruetas, mais ou menos ridiculas e parvoinhas, da materia.
Á meia noite, Jorge procurou o seu condiscipulo para dizer-lhe que se retirava. Atravessando uma sala, quasi despovoada, viu duas senhoras reclinadas n'uma ottomana, em postura de fatigadas ou aborrecidas. A mais velha não excederia vinte e cinco annos; a outra, que teria dezoito, foi a primeira que prendeu o exclusivo reparo de Jorge, senão antes uma contemplação absorta em que ellas mesmas repararam.
O academico devia captivar a attenção das duas senhoras, melancolicas por indole ou artificio. Tinha elle um semblante de si tão meigo e affectuoso, que as pessoas tristes sentiam-se melhorar em suas magoas, pensando que outras acaso maiores e mais carecidas de lenitivo denotava o brando olhar do moço. Estava, por ventura, este condão sympathico na magresa do rosto, cujo pallor mais era signal de compleição mimosa, que effeito de vigilias e desperdicios de vida com que muitos conhecidos nossos se recommendam ás senhoras idealistas, affectando langores e martyrios de alma, dos quaes a victima principal é, em verdade, o corpo.
—Sympathica physionomia!—disse a mais velha das duas senhoras.
—Conheces?!—perguntou a outra sem fugir os olhares de Jorge, o qual, por mero disfarce, encarava objectos, que realmente não via.
—Não o conheço, nem me lembra de o ter visto em parte alguma.
—Tinha curiosidade em conhecer... Não achas n'aquelle rosto um não sei que de distincção?
—Tem alguma cousa não vulgar...
—Uma tristeza insinuante, achas?