Apenas D. Euzebia fechou as commodas e caixas, compareceu o juiz eleito da freguezia para sellar e tomar conta de tudo o que pertencia a D. Thereza.

—Aqui estão as chaves, senhor juiz eleito—disse D. Euzebia,—mas é inutil esse trabalho, por que eu sou a unica herdeira de minha irmã, e ella não podia desherdar-me.

—É verdade, minha senhora,—respondeu o juiz—mas cumpro o meu dever, por que a lei protege os direitos de todos.

—Só eu é que tenho direito á fortuna de minha irmã, pois ella não tem filhos.

—Sim, minha senhora, mas esta orphãsinha, a quem ella deu asylo?

—Minha irmã—replicou com colera D. Euzebia—seria por ventura capaz de me desherdar, testando os seus bens a favor d'estas duas mendigas, que ella teve a phantasia de recolher em sua casa?

—Não o affirmo, minha senhora—respondeu com brandura o juiz;—mas sua irmã póde ter feito testamento, no qual deixe a Rosa alguma prova da sua estima e amisade.

—Não julgaria sufficiente o sustental-a e mais á avó,—disse D. Euzebia com voz forte—ainda lhe havia de deixar algum legado? Ah! minhas velhacas, virieis vós roubar o que de direito me pertence? Snr. juiz eleito, queira tambem sellar a porta do quarto d'ella, pois quem sabe lá, o que ella tem roubado. Minha irmã era tão pouco cautellosa...

—Oh! senhora—respondeu Rosa com muita tristeza a esta supposição offensiva—acreditaes que pagasse com o roubo os beneficios, que eu e minha avó recebemos da snr.ª D. Thereza?

O juiz eleito ordenou com brandura a Rosa que se calasse, para que D. Euzebia não continuasse, diante d'um leito de morte, com uma discussão tão vergonhosa, e feia.