—Era só o que faltava—dizia um dia, a orgulhosa D. Bertha, a D. Francisca de Meirelles, sua amiga—trazer para nossa casa estas duas mendigas. Podes tu, minha querida, explicar-me como é que Julia pôde affeiçoar-se tanto a estas duas creaturas?

—Tua irmã, Bertha, tem o coração muito sensivel; basta que lhe façam uma choradeira, ou que lhe contem uma historia triste para acreditar em tudo, e logo se affeiçoar a qualquer, e lhe dedicar carinho é protecção.

—Mas na verdade, esta sociedade não é tão agradavel e attrahente?—disse D. Bertha com um sorriso ironico.—Se a cega e a neta contam commigo para lhes fazer companhia, affirmo-te que lhes hei-de deixar muito tempo para se aborrecerem.

Conforme com estas bellas resoluções D. Bertha evitava o mais possivel dirigir a palavra a Rosa e sua avó, e, quando por necessidade o fazia, era com um modo tão sobranceiro, imperial e chocarreiro, que as duas infelizes ficavam confusas e envergonhadas.

D. Julia tentou por diversas vezes fazer nascer no coração de D. Bertha sentimentos mais nobres e mais christãos, mas infructuosamente, por que, procurar commover e sensibilisar o coração empedernido e orgulhoso de D. Bertha, era um trabalho improbo e esteril.

D. Julia, feliz por ter em sua companhia a querida de seu coração, a sua discipula, recuperou algum vigor, e ainda pôde recomeçar as lições. A fadiga, que d'este trabalho lhe podia provir, era attenuada pela attenção e estudo, que Rosa prestava ás prelecções.

D. Julia ainda quiz ensinar desenho a Rosa.

—Queres dar a Rosa—disse uma occasião a viscondessa a sua filha—uma educação e instrucção superiores á sua posição na sociedade, e não receias que isso para o futuro lhe cause embaraços e dissabores?

—Como resposta a essa pergunta tenha, minha querida mãi, a bondade de ouvir o que a minha protegida me dizia outro dia:

«O meu maior desejo, minha boa amiga e mestra, é alcançar bastante instrucção e saber, para um dia ser professora. Como me julgaria feliz podendo dizer ás minhas discipulas: era uma aldeã muito ignorante e rustica; uma boa menina, a snr.ª D. Julia, filha da snr.ª viscondessa do Candal, teve a bondade de me tomar sob a sua protecção e de me ensinar. É a ella, meninas, a quem devo o que sei e o que vos ensino. Se me amaes, deveis igualmente amar a snr.ª D. Julia, minha bemfeitora; e então ellas vos renderão graças, assim como eu vol-as rendo agora.»