Silvina relanceára a vista como quem não via, e voltando-se para o cavalheiro, disse:
—É do Porto aquelle senhor?
—É da provincia, minha senhora, estudante de Coimbra, meu condiscipulo, chama-se Jorge Coelho, pertence a nobilissima familia, e assevero a v. exc.ª que é um coração virginal, intacto, fervoroso, sentindo hoje pela primeira vez os impetos juvenis do amor.
—Não admiro, porque é muito novo.
—Muito novo! oh! minha senhora! Quantos velhos n'aquella idade! Aqui estou eu, de pouca mais idade que elle, e me considero já desillusioné, decrepito.
—Realmente?!... Perdoe-me a curiosidade—disse Silvina, com muita graça de fina ironia, sustentada com imperturbavel seriedade.—Queira dizer-me em que romance poderei encontrar o seu caracter, já que não devo esperar uma revelação das tempestades que o fizeram tão cedo naufragar!
—O meu caracter ainda não está escripto!—respondeu Pires, avincando a testa, e fitando-a de esguelha.
N'este comenos entraram os pares latentes em movimento, e a phrase ficou engasgada até ao proximo intervallo. Enganou-se, porém, o sceptico. Silvina, como esquecida da suspensão da lugubre narrativa, perguntou ao cavalheiro:
—O seu amigo demora-se no Porto?
—Não são essas as intenções d'elle, minha senhora; mas é de presumir que um aceno de v. exc.ª o faça esquecer a familia carinhosa que o está esperando.