Desculpem o parenthesis que desfeia um pouco o bello e harmonioso da fórma dialogal. Guarde-me Deus de motejar com insulsas facecias a candura, o rubor, a timidez encantadora dos vinte annos de Jorge. Invejo-lhe o que já não posso haver nem sequer com grande esforço d'arte; mas rio-me d'elle e de mim, quando as galhofeiras memorias do que fui, ha hoje quinze annos, sahem d'entre as flôres mirradas da minha primavera, e vem cá a este glacial dezembro da vida fazer-me assuada e zombaria, para que eu me dôa e corra das criancices de então. Pois rio-me com effeito, que é para isso a cousa, e riam-se, á vontade, os que de mim souberem que muitas vezes todo eu me incendiava em carmim e rosa, quando o olhar logrativo da mulher me alvoroçava o pudor a ponto de afeminar-me, e fazer de mim uma menina que... Quasi me escorregava agora dos bicos da penna uma necedade das que se não desculpam á propria santa innocencia que, repito, não sei se é mais santa que tola.

Vamos á historia com ajuda da providencia dos romancistas, a qual providencia, muitas vezes, abre mão d'elles, e deixa-os para ahi parvoejar que é mesmo cousa de peccado.

Silvina deu fé do rubor de Jorge, e...—querem saber a verdade inteira?—não gostou. É um segredo da essencia mulheril o dissabor que a molesta, a seu pesar... (vá, diga-se a seu pesar) quando o homem se amulherenga ao pé d'ella, e lhe não deixa o exclusivo de mulher. Receios de desmerecer em graças quando lhe é força ser mulheril? Consciencia ingrata d'uma superioridade que a desenfeita? Recursos que perde de captivar pelo mimo, com a brandura caridosa, por estremecimento do pudor, toques do pejo virginal, que ora lhe transluzem nas faces, ora lhe cerram os labios? Não sei se é tudo, ou alguma cousa, ou nada d'isso. A verdade é que a mulher não gosta de homens que coram, de homens que choram, de homens que... não são homens, está dito tudo, e n'isso ficaremos, se acham que está discutida a materia. Materia... que aleivosia! Isto é espirito o mais espiritual que póde ser. Espirito transcendental, d'aquelle que devia andar na mente de muito casquilho, paralta, janota, ou como é que se chama a tal alimaria, que se desentranha em lufadas de cynismo nos botequins, e vai ao pé das costureiras tartamudear jaculatorias de ternura.

Fica, pois, justificado o desgosto de Silvina, quando viu Jorge córar, por ter beijado a flôr, onde os labios da peregrina minhôta haviam imprimido o beijo de encommenda para a provincia.

—Agora, disse ella; são dous os beijos que leva a sua mãi, em uma só flôr. Queira Deus que o halito dos labios do filho não tirasse o perfume ao dos labios da amiga.

—Creio que sim—disse Jorge corando outra vez—creio que sim...

—Porque?!—atalhou Silvina com despeito mal comprimido.

—Porque sinto no coração o perfume do seu beijo.

Sahiu-se melhor do que eu pensava. É aquella uma das respostas que costumam ir de casa gizadas; mas creio no improviso. E assim, explicado o segundo accesso de escarlate, desvaneceu-se o desaire em que estava Jorge na opinião caprichosa da dama, que replicou muito requebrada:

—Pois não esperdice o perfume, porque nunca sentirá no coração outro mais puro, mais digno de incensar o seu amor reflectido do céo.