Na razão directa da tentação, nos esforços em rebatel-a, é que deve ser aferida cada alma victoriosa que, apesar dos demonios succubos e incubos, se alista nas legiões do céo. Não se dogmatisa, entendam: quer-se escassamente enunciar idéa nova, resaibada de heresia, a vêr se algum hypocrita illustra o livro, com as injurias da sua caridade apostolica. Não ha no romance outro merito que o inculque, nem perspectiva melhor agourada para o editor.

As adoraveis virtudes das senhoras do Porto não são de todo um merecimento: orçam mais por uma necessidade. O homem d'alli sente um terço, ou ainda menos das precisões espirituaes que, n'outras partes, incommodam o coração humano. Esta feliz frugalidade procede do geito d'aquella sociedade, geito antigo que degenerou em aleijão, rachitismo moral, corcunda hereditaria, e de mais a mais pegadiça, por quanto, se não é do Porto, e por lá apégar alguns mezes, leitor, apalpe as costas, e topará uma protuberancia a crescer, a crescer, até se formar corcunda, que irá comsigo a stoda a parte.

Aquelle aleijão, de barreiras do Porto a dentro, não fica mal a ninguem. Os liliputianos, conta Swift, chanceavam o viajante europeu, que tinha a ridicula felicidade de ser um homem bem apessoado e perfeito. As bellezas do Congo recuam de puro nojo diante de um formoso nariz branco sem pingentes. No Porto ha o escarneo e o tedio que explicam o paradoxo do selvagem.

A juventude masculina da cidade heroica está em contacto com a civilisação d'este seculo pelo alfaiate. Não poderam os velhos trancar as portas do burgo de Moninho Viegas á invasão dos figurinos. Calção e rabicho foram banidos; o tamanco e o chinelo d'ourélo cederam, constrangidos, o joanête indigena ao verniz, e ao couro da Russia; o difficil, porém, era pentear, vestir e calçar o espirito de gaito e arte que a gente, fitando em rosto o filho da civilisação portuense, não tivesse de descer os olhos a buscar-lhe nos pés o tamanco. É o sestro das transfigurações de golpe e abruptas.

Um joven bem estrellado de minas e camapheus, chama-se no Porto um janota. A menina ingenua diz á visinha: «conhece aquelle janota?» ou «fulaninha namora um janota louro.» Não se cuide, porém, que este epitheto implica mofa ou menospreso como em Maçãs de D. Maria, ou Lamas d'Orelhão. O janota portuense é uma cousa séria, que póde ser vereador, e irmão da ordem terceira.

Por via de regra, o janota é uma creatura que nasce, cresce, abre-se em florescencia variegada de frakes, e colletes, e pantalonas; toma posse do balcão paterno aos trinta annos, corta o bigode para que lhe descontem as letras, põe oculos se teve o infortunio de estragar a vista com a luneta que lhe servia de não vêr nada, fructifica em crianças gordas que entrajam á escoceza, e escôa-se de vida através de quarenta annos de lerda pachorra de espirito, legando á prole um nome limpo, com pequenas farruscas que se ensaboam na barreia de um necrologio, e dous legados de cincoenta mil reis ás entrevadas da Cordoaria, e alguma cousa ao hospital do Terço.

D'este viver assim resultam duas cousas que explicam muitas outras: primeira, que o elegante portuense dispende os annos perigosos da adolescencia vestindo-se de manhã para sahir de tarde; segunda, que as meninas, ao despegar da costura, ageitam os laçarotes do toucado, entufam os punhos das manguinhas, encostam o cotovello ao peitoril da janella, seguem o olhar de esguelha que lhe vai revirando o terceiro ou quarto janota predilecto, e fecha a janella quando a passagem do quinto é duvidosa.

D'est'arte, as paixões são innocentes e ao mesmo tempo substanciaes como um caldo de gallinha. As relações epistolares não derrancam a pureza das olhaduras. A carta, em regra, é declaração escripta que tolhe a poesia da declaração muda. Palestras, quer de sala, quer a horas mortas, da rua para a janella, que piedosa criada deixou aberta, são, se a patrulha o tolera, a morte de ambas as declarações, porque o janota que falla é muito menos soffrivel e grammatical que o janota que escreve. Ainda assim, o casamento remata isto que se chama o namoro. E o mais é que ella e elle, nas suas horas de recolhimento, cada qual a só por só com a sua consciencia, contempla saudoso o passado e diz: «Que bella mocidade eu tive! muito me diverti!»

Ponderam alguns authores que a morigeração dos costumes portuenses é o necessario effeito do atraso da civilisação e policia da classe media, em que as outras no Porto se embaralham e perdem. Esta palavra «civilisação» anda mal trazida para tudo. Se o refinamento das industrias, se a arte de crear capitaes, no minimo do tempo e com diminuto trabalho, constitue a maxima civilisação material, o Porto ganha a aposta aos mais ambiciosos prospectos de riqueza aventados pelos economistas. E assim é que alli enxameam os Midas no ouro e nas orelhas; porém, menos castigados que o fabulado Midas da theologia grega, logram digerir o boi e o toucinho na succulenta substancia que a natureza lhes deu.

Os que negam ao Porto a vanguarda do progresso industrial, que é a mesma civilisação, irmã gemea da intellectiva, e fonte da sã moral, derruem desde os alicerces a sciencia moderna, confessando assim a utopia do systema vulgarisado nas escolas, nas gazetas, e nas fórmas de governar das nações mais cultas. No Porto, dão-se as mãos a riqueza e os costumes edificativos, para se justificarem estes por aquella, e a primeira pelos segundos. A industria é a de hoje: os costumes são os de ha um seculo. O chefe de familia poderá ser moedeiro falso, negreiro aposentado com exercicio na casa real, alliciador de escravos brancos, contrabandista tolerado; mas a filha d'esse homem da época vive intemerata como a filha de Virginio; cuida que seu pai, recolhendo a casa encalmado e suado, vem de servir a patria como Cincinnato; e, chegada a occasião de exercitar as virtudes antigas, não duvidará ser Lucrecia, e Lucrecia menos equivoca que a de Colatino.