Jorge Coelho presenciava de longe, e cioso, a attenção que Silvina dava aos cavalheiros minhotos. Não os conhecia, para afoutar-se a entrar na roda, e interrogar com uma palavra vaga o coração de Silvina. Esta, porém, repellindo com desdenhosa philosophia os pesares que secretamente a remordiam, ergueu a fronte desanuviada, poz os olhos nos de Jorge, e fez uma ligeira cortezia, que todos julgaram ser um aceno para chamal-o.

A este tempo chegavam, perto de Silvina, Egas de Encerra-bodes, Christovão de Valladares, e Leonardo Pires. O do Matto-grosso comprimentou alguns primos que estavam na roda; e o de Santa Eufemia, voltando as costas para as senhoras, respondia, sem saber o que, a algumas perguntas d'um cavalheiro. O inquieto Pires, furando por entre todos, foi apertar a mão a Silvina, e dizer-lhe que estava o ideal da quinta essencia das fadas, com o que D. Francisca se riu, e riso fôra aquelle que abrira na testa de Pires um vinco dos que promettem cataclismos.

—Dá-me novas de Jorge?—disse Pires a D. Silvina.—Eu cheguei hontem da Maya, e não pude ainda encontral-o no hotel. O amor reduzil-o-ia a Sylpho, minha senhora?—proseguiu o estabalhoado, mordendo o charuto ao canto esquerdo dos beiços, e arqueando os braços na cintura.

—O seu amigo, disse Silvina, em voz alta, para desaffrontar-se da grosseira postura do morgado—está defronte de mim.

Pires fez uma pirueta sobre o calcanhar direito, fitou a luneta no condiscipulo, contemplou-o da altura da sua critica, volveu de novo o rosto risonho para a dama, e disse:

Sobre a pyra fumegante,
Ardem ternos corações.

Todos estes movimentos foram seguidos de outro mais significativo. Os olhares convergiram todos sobre Jorge, que ficou encarnado até ás orelhas. Alguns dos cavalheiros murmuraram o quer que fosse, e nomeadamente Egas de Encerra-bodes fitou-o insolentemente, e disse a meia voz:

—É aquelle?!

—Pelos modos!—respondeu o primo.

—Pobre criança! é preciso dizer ao pai que o mande buscar.