—Pois faz v. s.ª muito bem: o amor do proximo é preceito divino: sou de parecer que a ame; mas não lhe dou os parabens... Vinha eu dizendo que a tal Silvina já no Porto, de mãos dadas com a prima, não duvidou visitar uma estalajadeira de Margaride que viera a banhos de mar, porque esta estalajadeira tinha um filho que viera do Brazil, com alguns centos de contos, negociados na escravatura. E como o filho da estalajadeira não andava acostumado a comprar senão negras possantes e trabalhadoras, recusou comprar a compleição melindrosa da fidalga de Margaride. D'ahi veio o saber-se, pelo dizer a snr.ª D. Silvina, que o poderoso brazileiro é filho d'uma taverneira, e que fôra para o Brazil com umas soletas e chapéo de Braga que lhe dera de esmola o pai da fidalga. Eis aqui o que eu pude averiguar da pessoa por quem meu sobrinho troca os carinhos de sua mãi, a dôce amisade de seus irmãos, e as lições amoraveis de seu velho tio.
Jorge Coelho ficou enleado, e não replicou; Leonardo Pires, porém, que nunca em sua vida pensára o que dizia, senão meia hora depois de o dizer, exclamou:
—Mas ha-de confessar, snr. padre João, que ellas são boas mulheres!
—Boas!...—murmurou o padre, que não entendeu o sentido do adjectivo—boas... quer-me parecer que não são muito!
—Ora essa! pois não as acha bonitas e elegantes?
—Eu não as conheço; mas creio que são bonitas e elegantes: e d'ahi?
—E d'ahi! Amor omnia vincit! o amor tudo vence.
—Agradeço a traducção—disse, sorrindo, o padre, que, a fallar a verdade, tinha uns sorrisos que muito justificavam o dito de ter sido «homem» antes de ser frade.—O snr. Leonardo Pires não tem mãi?—acrescentou o padre, após um curto intervallo, com summa seriedade.
—Tenho, sim senhor; mas não tenciono namorar minha mãi—disse precipitadamente Leonardo.
O padre fitou-o com tristeza e admiração, um momento, e depois disse-lhe com bons modos: