Que sinto eu aqui?—proseguiu elle, pondo a mão na testa, cujos vincos se afundavam—Será o pensamento confuso do girondino á vista da guilhotina? Será o abutre gerado n'um sangue que, cedo ou tarde, tem de trazer-me a congestão ao cerebro?... Não sei...

—Porque não será a alma que geme solitaria como a rôla, que, além, no ramo secco d'aquelle azevinho, está chamando o companheiro que ha-de vir?—disse eu em phrase lyrica para não destoar da linguagem levantada de Jorge Coelho.

—Não creio—acudiu logo o meu amigo.—Eu tenho lido o amor dos livros, o amor dos romances, o amor da historia, o amor da poesia. Não me inquieto, nem me acho n'esse sentir. O que não entendia aos quatorze annos, não o entendo hoje melhor. As impressões que então recebi, recebo-as agora semelhantes. Os quadros de Dido e Eneas, de Helena e Páris, são duas telas borrifadas de sangue. O amor não póde ser aquillo. Paulo e Virginia, Julieta e Romeu são duas catastrophes que apertam a alma entre a admiração e o dó. A felicidade não está n'esses amores tão celebrados. Werther e Carlota, Chatterton e Kit-Bell, com o anjo inexoravel da virtude entre si, ao despenharem-se um apoz outro no abysmo da morte, para se salvarem do abysmo da perdição, são dous entes desamparados do anjo bom que nem sequer já serve para galardoar heroicos martyrios. Pois não irão mais longe os meus anhelos de gloria?

A região da felicidade estará delimitada pelas raias do amor, que o romance, e a historia, e a epopea me pintam, glorificado por lagrimas e sangue?

—Mas ha um amor—redargui—que não é o amor da historia, do romance, e da epopea. É amor reflectido de mais alto amor, que as almas adivinham e não entendem. É amor, preludio da bemaventurança, e prelibação da ambrosia celestial.

—É o amor do romance, esse, creio eu...—interrompeu Jorge Coelho sorrindo.

—Não é, meu amigo; e, se me contradizes n'essa idade, inculcas baixeza de affectos, que eu não posso acreditar, por honra da especie humana. O que te authorisa a desmentir um homem de trinta annos, que por sua honra te jura que esse amor existe? Queres achar Vestigios dos trabalhos e calamidades que me custou a descobril-o?

Repara nos meus cabellos brancos.

Colombo achou curtas as fadigas, que lhe deram o novo mundo, e a perpetuidade do nome d'elle, mais valioso que o novo mundo. Experimentaria Colombo as vertigens de prazer, que me endoudeciam, quando encontrei a mulher mais perfeita que os primores da minha phantasia?

Não te allucines, porém—prosegui, vendo nos olhos de Jorge a lucidez do enthusiasmo, accusando o proposito de se abrasar no primeiro amor, que lhe deparasse o acaso.—Não te allucines em presença de qualquer mulher com sorrisos de Virginia, que tanto servem de elogio ao pudor como de epitaphio da innocencia. Não respires com sofreguidão o aroma das primeiras flôres, que encontrares. Lirios e mandragoras são bellas flôres, que matam, se as não lançares de ti, aspirados os primeiros effluvios. Ha mulheres como as flôres venenosas: se te detiveres com ellas mais tempo que o necessario para lisongeares a sensação, e regalares a phantasia, sentir-te-has tomado de um marasmo de espirito, em que serão delidas as tuas mais nobres faculdades, e, a mais válida de todas, o mais nobre apoio da tua dignidade de homem—a liberdade. Esta doença, no começo da vida, deixa achaque para sempre; é como a bala recebida em pleno peito e lá encerrada: o ferido vive; mas, a revezes, a dôr lhe está lembrando que a bala pesa sobre o derradeiro fio da vida. Mulheres, que matem corações generosos, ha muitas para cada homem. Mulher, que salve, ha uma só.