1.º Respeitar a liberdade do coração humano, sem prejuizo do soalheiro das salas, em que é preciso entreter o tempo, e fingir a gente que não conhece senão as pessoas que estão fóra das salas.
2.º Fingir, outro sim, a gente que está convencido da tolice dos outros, para que os outros nos tenham em conta de boçaes de boa fé, e não de espertos sem pudor. Dá-se um exemplo em hypothese: tal marido sabe que o mundo o lastima ou moteja; mas como a lastima e a irrisão cauterisam, sem curar, a chaga do vilipendio, o lazaro finge-se de optima saude, e aproveita occasião de gemer pela molestia do seu amigo, gafado da mesma lepra. Estes dous homens, se se topam, e fallam da corrupção social, voltam as costas a rir um do outro, e vão cada qual por seu lado, espalhando a risada contagiosa.
3.º Não perdoar o que se chama «escandalo». Escandalo é não ter a sagacidade da hypocrisia, e o despejo de injuriar o senso publico, tratando-o de nescio. Escandalo é tomar a serio as brincadeiras do coração, e vir dar alguem á sociedade uma prova de que despresa o contracto social. Escandalo é cahir da prostituição legal á honra do coração, que cuida ennobrecer-se e regenerar-se; victimando o nome, o estado, e o que a inveja chama fortuna, ao goso de conhecer a liberdade na miseria. Escandalo, a final, o escandalo maximo e abominavel e imperdoavel é a mesma miseria.
A sociedade sabe que o crime é um dos elementos da ordem das cousas, e julga-o um mal necessario, sem o qual não haveria bem-aventurança nem inferno, nem anjos, nem demonios, e Deus seria inutil por não ter que fazer, visto que os theologos lhe não attribuem occupação que não seja julgar, premiar, condemnar, e perdoar, segundo lhe pedem, ou conforme a sua espontanea misericordia quer. Ora, sem o crime, este complicadissimo funccionalismo, cujo presidente é o Creador do céo e da terra, do mar e do sol, da avesinha que regorgeia nas moitas, e do leão que atrôa os desertos, do homem como Alexandre e Napoleão e do homem como José Francisco Andraens, e Manoel Pereira... dizia eu... eu! eu não dizia nada: quem dizia que o crime é necessario era o jornalista, amigo de Guilherme do Amaral, conversando na «Aguia d'Ouro» com Jorge Coelho, alguns dias depois do encontro em que os vimos no capitulo ultimo da primeira parte d'estas biographias.
Vamos agora á historia.
Achou Jorge em casa de D. Marianna Ferreira o seu quarto e sala adornados com muito aceio e selecção. Melhor que isto, era o gosto de se vêr acolhido sem estranhesa nem demasias de ceremonia. Os filhos e filhas de D. Marianna, logo ao segundo dia, o tinham como pessoa da familia, e porfiavam em divertil-o d'aquelle geito de tristeza, que era natural, e das abstracções penosas, que tinham a sua razão de ser na dôr do coração.
D. Marianna, senhora algum tanto despreoccupada do artificio, que tão preciso é, chamado delicadeza, logo que Jorge lhe deu uma aberta, fallou na paixão, que o seu hospede tinha por Silvina, e nos desgostos, nascidos d'esse louco amor, para a sua querida Antonia.
D. Marianna, em termos desabridos, disse de Silvina o que era notorio, e talvez lhe exagerasse os defeitos.
Jorge escutou-a respeitosamente, e ao mesmo tempo admirou-se de ouvil-a assim fallar na presença de suas filhas, que todas estavam presentes, salvo Rachel, a quem elle não tinha ainda visto.
Lembrado está o leitor de ter sahido Manoel Pereira zangado de casa de sua sogra, por que a maioria lhe rejeitára o parecer de não ser recebido Jorge em casa d'aquella. Como Rachel sahisse então da sua paciente annuencia aos votos irracionaes do marido, este, mal afeito a ser contradictado, protestou convencer a mulher e a sogra de que não queria relações com tal sujeito.