Frei Francisco sabia que morrera para o mundo, e o ermo de S. Martinho de Tibães era-lhe um sepulchro grato, uma lousa amiga sua, já polida dos prantos d'elle. Impetos ainda de coração mal domado o impelliam para Carlota. Mas quem era n'este mundo a professa benedictina? Era um cadaver como elle, uma existencia passada, uma vaga imagem que esvoaçava entre a cruz e o monge, e parava um momento para lhe verter nas mãos erguidas uma lagrima.

Que importavam as visões da noite, esse fitar de olhos lagrimosos na lua, e nas estrellas, nas nuvens encapelladas, e no clarão do relampago?

Que valia ao pobre coração do frade estrebuxar ainda nas agonias do amor, no paroxismo horrivel d'esse suicidio de tantas vidas?

Que conforto lhe seria baixar do céo os olhos sobre si, e ver-se amortalhado?

Não recorramos ao milagre para explicarmos a tranquillidade do espirito que de repente abjura o mundo, e se lança desesperado ás misericordias divinas.

Terrivel deve de ser o preço da tranquillidade, quando não é a morte que a traz. A morte, sim: essa será sempre a bem-vinda dos desgraçados, porque Deus lhe fez de gêlo a mão que ella põe no seio abrasado do afflicto.

As cartas de Carlota Angela eram um adeus repetido ao seu amigo, um convite festival para a eternidade. Nem uma só reminiscencia do passado escurecia a linguagem lucida da prophetisa que descrevia as alegrias do céo. Era tudo porvir, tudo paragens do vôo que ella ia desferir da margem da sepultura para além. Dos seus soffrimentos nada lhe dizia: os da alma abençoava-os, os do corpo chamava-lhes o doce pungimento dos espinhos da sua corôa gloriosa.

Soror Rufina, amiga do monge benedictino, escrevia-lhe menos enlevada em extasis. Fallando-lhe da sobrinha, contava-lhe os rapidos progressos de uma tisica irremediavel, e da paciencia christã com que ella via aproximar-se o termo de suas dores. A ultima carta que lhe escreveu, revelava-lhe o desejo que sua sobrinha mostrara de ver o seu amigo, o seu esposo celestial, uma vez, uma só vez antes de morrer.

Frei Francisco mediu as suas forças, e pediu a Deus que lhe aniquilasse as que elle sentia para encarar Carlota, se eram peccaminosas.

Seis mezes depois de professo, o monge foi ao Porto, e recolheu-se ao mosteiro de S. Bento da Victoria. D'ahi consultou soror Rufina sobre a sua ida ao convento, porque entrara n'elle o presagio de que a infeliz succumbiria ao vel-o desfigurado, encanecido, e triste como o espectro de uma felicidade morta, que os vermes roazes da desventura tornaram pavorosa.