—Francisco!—repetiu ella com a voz quasi desfallecida—és tu?
—Não vol-o disse, minha irmã, que me não conhecerieis?—disse o benedictino com um violento sorriso.
—Conheço, conheço...—tornou ella, sentando-se, ou caíndo na cadeira aonde a tia se esforçara em sental-a.—Era assim que eu o via nos meus delirios, irmão da minha alma. Cá o sentia no coração morrendo assim... Faltava-me ouvir este som de finados que me está cortando os ultimos fios... É por mim, ou por ti, Francisco?... por ambos...
De feito, soava um dobre a finados na torre do mosteiro. Expirara momentos antes uma religiosa d'aquella casa, a quem Carlota pedira que intercedesse ao Senhor por ella, a fim de que a chamasse a si antes que se apagassem os cirios do funeral da agonisante. Esta fizera um gesto affirmativo, e expirara com os olhos fitos na freira.
Carlota proferira aquellas palavras, e pedira uma gotta de agua. Emquanto soror Rufina descera á portaria a buscal-a, a freira introduziu a custo o braço pela grade e disse:
—Francisco! dá-me a tua mão.
O monge tomou a mão de Carlota, e, ao apertal-a, sentiu a frialdade humida da mão de um cadaver. A posição da religiosa era violenta, com o peito encostado aos ferros, e a tosse suffocava-a. Frei Francisco fez esforço para afastar o braço, mas debalde. Aquella mão apertava como a do naufrago em trances de morte. Um frouxo de tosse salpicou de sangue o braço do monge, e em seguida, já quando Rufina entrava na grade com o copo, a mão de Carlota decaíu com o braço ao longo da grade, a fronte pendeu para as costas da cadeira, o outro braço já se não ergueu para tomar o copo da agua que lhe roçava os labios humidos de sangue.
—Minha filha!—exclamou a atribulada freira. Carlota descerrou as palpebras, relanceou a vista quasi apagada para o monge, e fechou-as de novo, murmurando:
—Ouviu-me Deus!
Rufina soltou um ai vibrante, e caiu de joelhos aos pés da sobrinha.