Norberto não o entendeu; mas redarguiu:

—Se elles cá vem, é contar que não deixam nada; diz que mettem a saque tudo quanto topam, pois não mettem?

—É possivel; mas v. s.ª previna-se, escondendo o seu precioso aqui no Candal, por exemplo, onde de certo os francezes não virão. Ahi está o inconveniente de ser rico. Já o snr. Norberto está a soffrer com o mêdo de que o obriguem a uma contribuição...

—Se lhe parece.... o caso não é para menos: quem não tem nada, tanto se lhe dá como se lhe deu; mas quem lhe custou a ganhar o que tem, pouco ou muito, quer paz e socego.

—Não se aterre antes de tempo, snr. Norberto,—replicou Mendonça, sorrindo a Carlota—quando os francezes invadissem Portugal, eu ajudaria a v. s.ª a defender o que é seu, não só como esposo de sua filha, mas tambem como seu amigo.

—Isso lá...—regougou o mercieiro—muito obrigado, não me despeço do favor: mas o senhor é militar, e quando isso for não lhe ha de faltar por lá que fazer, na guerra do mar.

—Assim aconteceria—tornou Mendonça, enterrando lentamente o estillete observador—se eu não tencionasse pedir a minha baixa do serviço, para evitar que as revoluções perturbem a felicidade de minha mulher e a minha.

—Então que modo de vida queria o senhor ter, se casasse com a minha Carlota?

—Outro qualquer mais permanente, mais descansado; negociante, por exemplo.

—E que é dos fundos?