D. Rosalia faltara a este conflicto, porque, atarefada na cozinha com a liquidação dos legumes vendidos na manhã d'aquelle dia, não dera fé de entrar Mendonça.

Carlota Angela, apenas sósinha com seu pae, voltou-lhes as costas, e saiu da sala.

Norberto ficara de tal modo aturdido com o desembaraço da filha, que parecia temel-a. Procurou a mulher, e contou-lhe, como elle podia, o succedido. D. Rosalia benzeu-se tres vezes, e tres vezes levou os braços em arco á altura da cabeça, acção favorita da grossa matrona, quando queria exprimir o supremo espanto.

Animando-se mutuamente, entraram no quarto de Carlota, e gritaram ambos ao mesmo tempo:

—Filha ingrata! nós te amaldiçoamos!

—Para sempre!—disse a solo o snr. Norberto.

—Para sempre!—repetiu D. Rosalia.

—Amaldiçoada!—bradaram em dueto.

—E por que me amaldiçoam?—disse Carlota—que crimes são os meus?

—Ainda perguntas?!—respondeu Norberto, opilando olhos, bochechas, nariz, e tudo o mais susceptivel de opilação na sua elastica physionomia—Pois não tiveste o atrevimento de me dizer ainda agora que eu não podia fazer nada?