—Diz que tenho satisfeito a todos aquelles em que correspondo aos deveres de pae.
—Não sejas tão absoluta nas tuas respostas, Carlota. A desobediencia é um crime.
—E o suicidio, minha tia?
—O suicidio é o maior dos crimes, porque é o desprezo do divino remedio nas dores passageiras d'esta vida.
—Pois creia que obedecer é morrer; se obedeço, se retiro o meu amor... retirar, meu Deus! eu disse uma loucura! eu não posso retirar o meu amor a Francisco; o mais que posso é mentir; mas essa mentira custa-me a morte... é o suicidio, e mais ainda... é um assassinio, porque eu mato o homem que me é tudo n'esta vida...
Carlota rompeu n'um alto soluçar de lagrimas, que fez chorar a religiosa.
—É escusado—disse esta, após um longo intervallo de silencio, cortado de suspiros—é escusado combater a tua paixão. Eu pedi tanto ao Senhor, em communidade, com algumas santinhas d'esta casa, que te mudasse a tenção, que já agora não posso duvidar que o céo abençôa a tua união com esse mancebo. Já não te reprehendo, nem dissuado, minha sobrinha. Faremos com tua mãe o que não podérmos fazer com o espirito teimoso de teu pae. Enternece-a com as tuas lagrimas, menina; esperta-lhe a compaixão de que está cheio um coração maternal.
—Já o consegui; minha mãe chorou commigo, e prometteu alcançar de meu pae o consentimento que elle já tinha dado.
—Já tinha dado?! a quem?
—A Francisco Salter, quando me foi pedir.