O ministro chamou o requerente a uma audiencia secreta, e disse-lhe que não só lhe negava a baixa, mas até lhe exigia o cumprimento das ordens regias; que seria mal visto de sua alteza o subdito que tão mal correspondesse ao regio conceito: que seria degenerado portuguez o que, no solemne momento de pôr peito em defeza da patria e á remuneração de patrioticos feitos, se furtasse aos trabalhos e ás glorias: que seria irrisorio não justificar o requerimento de baixa com mais motivos para tamanho desconcerto que um pueril amor, que não devia passar de um incidente de terceira ordem na vida de um homem intelligente, e fadado para estrondosos destinos: que, finalmente, o valimento se converteria em castigo, se elle requerente persistisse na disparatada baixa, cuja concessão lhe grangearia o riso de uns, o odioso de outros, suspeitas perigosas de muitos, e, mais que tudo, a mal-querença de sua alteza, que tencionava nomeal-o major da armada, logo que servisse tres mezes no Brazil.
O remate da allocução era a douradura da pilula. Major da armada! a aspiração mais vantajosa de tantos, que a não realisavam na velhice! Voltar, depois de alguns mezes, a Portugal, major da armada, condecorado, ennobrecido, chamado aos conselhos do soberano, e talvez ao ministerio!
Mas deixar Carlota no convento, a carinhosa Carlota, amada dois annos, amada para sempre, votada aos sacrificios, aos desprezos, ás injurias, a tudo, para lhe merecer a elle a renuncia de glorias que retardavam um enlace tão suspirado!
Mendonça, na vespera da saida para o Rio de Janeiro, escreveu esta carta:
«Vê, minha Carlota, que eu choro. A afflicção não me deixa outro desafogo. Quando receberes esta carta, separam-nos centenares de leguas. Eu parto ámanhã para o Brazil, obrigado pela minha condição de servo agaloado. Deram-me o commando de um navio, e mandam-me cumprir serviços de que eu cobraria esperanças para grandes honras, se a minha gloria unica não fosses tu, esposa da minha alma. Quiz dar a minha baixa, requeri, instei, negaram-m'a, e impozeram-me as leis militares. Quiz dizer-te um adeus por algum tempo; não me consentiram delongas, porque a corveta Amazona esperava-me quasi aprestada para se fazer á vela.
«Mas eu não parto, Carlota. Comtigo fico, anjo. O meu coração ahi fica, ahi está pulsando no teu. As lagrimas de saudade que choras, choram-as tambem os meus olhos. Entre nós, n'esta longa distancia que nos separa, prende-nos a mesma cadeia de dores, de afflicções, de terriveis presentimentos. Quando te doer no coração o presagio da minha morte, sentil-o-hei tambem eu lá, e chamarei por ti no silencio da minha alma, n'este grito surdo da saudade, que é um despedaçar de todos os ligamentos da vida.
«Por que choramos nós, Carlota? Invoquemos a razão desvairada pela angustia; suppliquemos a essa filha de Deus, senão remedio, ao menos conforto ás nossas dores. Deveremos nós chorar como choram amantes infelizes? Eu creio que não, minha cara esposa. Se hoje nos dissessem: «a vossa união ha de realisar-se passados seis mezes, ou ainda um anno», teriamos justo motivo para nos rebellarmos contra o destino, contra a Providencia que nos aproximou tão dignos um do outro?
«Não, Carlota, porque o nosso amor não está ameaçado de alguma sinistra casualidade que o aniquile ou arrefeça. As distancias são impossiveis entre duas almas identificadas. Para ti no claustro, para mim na amplidão dos mares haverá sempre o mesmo santuario de fervente amor, a mesma acção de graças a Deus, que não quer o infortunio dos que o confessam e chamam nas suas agonias. As nossas lagrimas ha de a esperança enxugal-as. A esperança nos acordará dos sonhos tristes. A saudade, que desalenta e cansa, irá ao futuro pedir sorrisos ás risonhas imagens da nossa ventura de esposos. Oh! nós não temos razão para chorar uma separação de alguns mezes, quando nos separamos tão confiados, como se acabassemos de receber a benção no altar, como se, no derradeiro abraço, sentissemos entre nossas faces o rosto de um filho.
«Que ridente imagem esta, ó Carlota! que estranho palpitar de coração eu sinto agora! que delicias nos aguardam para o dia immorredouro da nossa felicidade!
«Animo, minha adorada esposa! Eu careço de imaginar que tens coração para aceitar, sem fraqueza, esta dor. Preciso alentar-me da tua coragem, para que o auxilio da razão não esmoreça. Animei-te; mas as lagrimas não me deixam escrever, nem a ti te deixarão entender estas palavras. Agora se me cerra em indizivel tortura o coração. Largo a penna, desafógo em gemidos este aperto de alma, similhante ao impossivel de comparar-se. Não me venço. Já creio que te perdi. Accuso-me de ingrato por que não deserto, e calco as leis, e fujo para ti, e te roubo a todo o mundo, para mendigar comtigo uma esmola em paiz estrangeiro. Eu sou vil, sou indigno de ti, e rasgarei esta carta, ou ler-t'a-hei de joelhos, para que tu me perdôes tamanho crime.