Quarto, e ultimo exordio:
«Vou contar-vos uma historia que verifiquei nas fieis narrações de mais de vinte pessoas vivas. Ides ver até que ponto os paes podem infelicitar os filhos; até que ponto a missão augusta do segundo creador póde ser fementida e insidiosa; até que ponto o amor paternal é amor, e d'onde começa a ser deshumanidade. Se alguma confiança devo ter na justiça congenial do coração humano, espero carear graça e indulgencia para uma filha que se rebella primeiro contra um pae, depois contra o falso deus que lhe impozeram como verdugo de mais alta e temerosa categoria, arbitro e claviculario das sempiternas moradas do inferno... etc.»
Ahi está o que eu tinha escripto. Tudo rejeitei, contra a opinião de um congresso de homens de delicado gosto, que votaram por qualquer dos quatro preludios, chasqueando-me a simpleza com que escrevi o quinto, acanhado e pêco como historieta sem nervo, nem imaginação.
E, portanto, desde já me desquito com os leitores se no decurso d'este romance me apodarem de insulso e desimaginoso.
VERDADE, NATURALIDADE, E FIDELIDADE
é a minha divisa, e sel-o-ha emquanto este globo se não reconstruir á feição do disparate com que uns o alindam e outros o desfeiam.
Quem desde já sentir azias de bôca, deixe isto, e desenfastie-se com as conservas irritantes da França, e até das nacionaes, que tambem as temos, curtidas em vasilhas, francezas. Embora travem á hervilhaca, é o que temos, e o que nos dão os Watteis dos fricassés litterarios, em menoscabo do classico cozinhado de Domingos Rodrigues.
Atemos o fio, e a graça de Deus nos assista, para que a benevolencia do leitor se compraza com o alinho desaffectado e lhano d'este conto.
A filha unica de Norberto de Meirelles e D. Rosalia Sampayo chamava-se Carlota Angela, e tinha dezesete annos, em 1806.
Não era formosa; mas exquisitamente engraçada sim.